quinta-feira, 28 de maio de 2015

HIPOTIPOSES PIRRONICAS – SEXTO EMPÍRICO CAPÍTULO VIII – FRAGMENTOS 16 e 17 – O CÉTICO PERTENCE A UMA ESCOLA?

                                                                                       Antonio Durval Campelo Barauna


[16] Seguimos o mesmo caminho ao responder a questão sobre se o célico pertence a uma escola. Se dizemos que uma escola é uma inclinação a seguir uma porção de dogmas que se seguem uns aos outros assim como seguem as coisas aparentes, e dizemos que um dogma é o assentimento a algo que é não-evidente, então diremos que o cético não pertence a uma escola. [17] Mas se declaramos que uma escola é a conduta que segue um raciocínio determinado de acordo com aquilo que aparece, raciocínio este que mostra como parece possível viver corretamente (e tomamos corretamente não no sentido de "segundo a virtude", mas em um sentido mais amplo), e que tende a nos dar a possibilidade da suspensão, diremos, então, que o cético pertence a uma escola. Pois nós seguimos um, raciocínio determinado que nos mostra, de acordo com a aparência, como viver segundo os costumes tradicionais, as leis, os modos de vida e nossas afecções próprias.



Os fragmentos 16 e 17 das Hipotiposes Pirronicas expõem duas posições que nos levam a refletir sobre se o ceticismo constitui ou não uma ‘escola’ no sentido clássico aplicado às correntes filosóficas, o que constitui um tema fundamental que tem ocupado os estudiosos do ceticismo.
O ceticismo, pela sua própria natureza, se diferencia do dogmatismo, para o qual a verdade é conhecida ou que é impossível conhecê-la, o que não deixa de ser a admissão de uma outra verdade. O cético investiga, estando sempre em busca, não admitindo a existência de ‘verdades absolutas’, opondo-se desta forma ao dogmatismo, para o qual o homem é capaz de atingir a verdade absoluta e indiscutível. Segundo Burnyeat “Podemos começar, como fazem os próprios céticos, pelos argumentos. Sképsis significa investigação, exame, e o ceticismo pirrônico é em primeira instância uma prática muito desenvolvida de investigação argumentativa, formalizada de acordo com uma quantidade de modos ou padrões de argumento” (BURNYEAT, 2010, p. 204). 
Na antiguidade, o termo dogma estava ligado ao que parecia ser uma crença ou convicção, algo irrefutável, uma doutrina. Assim, o fragmento 16 nos dá uma ideia de escola como doutrina, aproximando-se do dogmatismo ou crença, da qual a figura do cético é logo afastada pelo autor. Esse modelo aparece como contraponto ao ceticismo pirrônico de Sexto Empírico, que se identifica, a nosso ver com a descrição contida no fragmento 17, na qual é incluído o cético, pois admitidas as condições ali descritas, o autor conclui afirmando: “diremos, então, que o cético pertence a uma escola”.
O ceticismo limita-se à observação e investigação dos fenômenos, por acreditar não ser possível formar conhecimentos plenos e definitivos, ou seja, alcançar uma ‘verdade absoluta’, e por isso mesmo transmitir essa verdade através de escritos ou ensinamentos típicos de uma escola ou doutrina. Segundo Schvartz, “O dogmático profere dogmas e o cético questiona esses dogmas. Ao dogmatizar, o dogmático, nas palavras de Sexto Empírico, ‘põe algo como real’, ‘como verdadeiro’, pretende dizer como as coisas são em si mesmas, isto é, na sua natureza, dá assentimento a algo não evidente (ádelon).  Já o cético nada põe como real, não pretende dizer verdade alguma em seu discurso nem nele exprimir a natureza das coisas; tampouco dá assentimento ao não evidente (SCHVARTZ, 2010, p. 75-76).
Sobre a relação entre dogmáticos e céticos, Burnyeat diz que “O consentimento é o gênero; a opinião, ou a crença, é uma das suas espécies, a qual concerne a questões da existência real em contraste com as aparências. Os dogmáticos, cuja infindável variedade de opiniões sobre a existência real provê ao cético as suas armas bem como os seus alvos, são simplesmente os que crêem; na medida em que é justificada a leitura na conotação moderna de ‘dogmático’, i.e., a pessoa com um obstinado e irracional apego às suas opiniões, isto não pertence ao significado central do termo grego, mas à defesa argumentada do cético, à qual deveremos chegar, de que todas as crenças são irracionais. Todas as crenças são irracionais precisamente por que, como estamos vendo agora, toda crença diz respeito à existência real em oposição à aparência” (BURNYEAT, 2010, p. 207-208)
Aquele que admite qualquer certeza, ou até a impossibilidade de alcançar a certeza, o que não deixa também de ser uma ‘certeza’, e diante de tal ‘verdade’ alcançada, vê a possibilidade de transmiti-la, através de uma ‘escola’ ou doutrina, é dito ‘dogmático’. O dogmatismo deve ser compreendido, filosoficamente, em relação ao problema do conhecimento e dos meios que este utiliza para chegar a uma resposta, uma verdade. Assim, podemos vê-lo em dois sentidos principais, que se misturam, como a afirmação da possibilidade de alcançar a realidade em si mesma, e a confiança nas habilidades humanas, especialmente na razão, como meio de acesso à verdade.
O ceticismo questiona, e os questionamentos giram em torno da verdade, acreditando que nem tudo é como se pensa ser.  A dúvida é o principal mecanismo do ceticismo, o individuo é movido pelas indagações e incertezas.
Nas próprias Hipotiposes referindo-se ao estudo das ciências naturais, típicas pela busca e ‘comprovação’ de verdades, Sexto Empírico afirma que, ao responder a questão sobre se o cético deve dedicar-se a tal estudo, que eles não podem estuda-las de maneira a poder fazer afirmações convictas a respeito dos pontos dogmaticamente tratados por elas, e sim com o objetivo de poder colocar diante de todo argumento um outro argumento, ou seja, com o objetivo de questioná-la. É desta maneira que o cético lida com a parte lógica e a parte ética daquilo que se chama filosofia.
A partir do pensamento de Pirro, reconhecido pelos céticos antigos como o inspirador do ceticismo, Sexto Empírico escreveu as Hipotiposes Pirronicas. Talvez por coerência, e por considerar o ceticismo uma atitude, uma forma de viver, Pirro nada tenha escrito, já que a atitude e forma de encarar a vida são inerentes ao individuo e às circunstâncias em que ele vive, e escrever o que é ou pensa o cético, criando uma ‘escola’ ou doutrina, estaria levando a ditar ‘verdades’ alcançadas, o que contrariaria o ceticismo como forma de ser e de investigar em busca de respostas. Esta posição coloca o fragmento 17 das Hipotiposes mais próximo da prática no ceticismo pirrônico.
O fato de Pirro não haver deixado nada escrito – o que dele se conhece é a partir de escritos dos seus discípulos, principalmente Timon – dá lugar a diferentes interpretações do seu legado, o que contribui de certa forma, para que esse legado esteja mais sujeito a críticas e entendimentos diferenciadas, fato que se reforça por sabermos que muitos dos que escreveram sobre o pensamento pirrônico fizeram isso muito tempo depois, com base nos escritos de discípulos.
Desta forma, as informações que temos sobre ele se apresentem, muitas vezes, contraditórias, podendo-se até falar em dois Pirros: o da tradição acadêmica, conservado por Cícero e o da tradição cética, trazido até nós, principalmente por Sexto Empírico, que aqui comentamos. Sobre a visão de Cícero, Bolzani nos diz que “os testemunhos a respeito de Pirro não têm apenas as características mencionadas. Contrariamente às fontes acima citadas, encontramos também um Pirro que dificilmente poderia ser visto como um cético. É o que nos informam alguns textos filosóficos de Cícero: Pirro é defensor de uma doutrina da “indiferença” em relação a tudo, doutrina que, segundo Cícero, sequer merece ser comentada (cf. Sobre os Fins, II, 35 e 43; Sobre os Deveres, I, 6). Mas Pirro seria, ao mesmo tempo, um moralista severo que crê na suprema virtude (Sobre os Fins, IV, 43). Agora, se consideramos o testemunho ciceroniano como fonte mais autorizada, dificilmente podemos ver em Pirro um cético, ainda que apenas em gérmen. E a reivindicação, pelos pirrônicos posteriores, do pensamento de Pirro, terá de ser interpretada como uma deturpação do real sentido de sua posição” (BOLZANI, 2011, p. 7-8).
Temos assim que Pirro simboliza um referencial para as diversas interpretações do seu pensamento.  Ao contrário dos que se filiam ao fragmento 16 das Hipotiposes, ele não estabeleceu uma doutrina ou escola propriamente dita – como tratamos as ‘escolas’ filosóficas, por exemplo – e sim um atitude, uma forma de ser, que podemos tomar em defesa do dito ‘pensamento cético’. Assim, podemos tomar como contraditória a afirmação de Bolzani, segundo a qual “Dentre os poucos nomes de pensadores céticos pirrônicos que nos chegaram, figuram com especial importância Timão de Flionte, discípulo direto de Pirro, Enesidemo, Agripa e Sexto Empírico, este já, ao que parece, no segundo ou terceiro século d. C.. É dele o que nos restou dos textos pirrônicos: suas Hipotiposes Pirronianas (HP) são uma Suma do pirronismo” (BOLZANI, 2011, p. 6), visto que, a admissão da própria existência de ‘pensadores céticos’ pressupõe a possibilidade de ‘transmissão’ doutrinária de um pensamento cético, o que contrariaria a visão de Pirro.
De qualquer forma, pode-se confirmar que “Uma das questões que mais têm interessado aos historiadores modernos e contemporâneos do ceticismo antigo é aquela que concerne às diferenças entre as duas tradicionais correntes céticas, denominadas acadêmica e pirrônica. Interesse plenamente justificado, pois se trata, na verdade, de questão clássica, posta já pelos antigos, como nos informam as Noites Áticas de Aulo Géllio: “é uma antiga questão, considerada por muitos escritores gregos, em que e quanto diferem filósofos pirrônicos e acadêmicos” (BOLZANI, 2011, p. 5).
Podemos concluir, à luz dos fragmentos 16 e 17 das Hipotiposes, que o ceticismo de Pirro, trazido por Sexto Empírico “é a conduta que segue um raciocínio determinado de acordo com aquilo que aparece”, não se prende a dogmas ou afirma a impossibilidade de se alcançar a verdade, situação que, certamente, cria dificuldades à elaboração de escritos e interpretações.  O ceticismo pirrônico afasta-se da ideia de escola como “uma inclinação a seguir uma porção de dogmas que se seguem uns aos outros assim como seguem as coisas aparentes”, e ao admitirmos que um dogma é o assentimento a algo que é não evidente, fica claro o afastamento do ceticismo pirrônico do que conhecemos como um modelo clássico de escola filosófica, embora possamos por  sempre em questão o fato de que, ao se escrever sobre o ceticismo, tentando de alguma forma sistematiza-lo, como fez  Sexto Empírico, não se estaria fazendo com que ele se aproximasse mais de uma ‘escola’ no modelo clássico, como afirmamos antes, se afastando da ideia de uma prática, um modo de viver, como praticou Pirro.

Referencias Bibliográficas
BOLZANI FILHO, Roberto (2011). “Acadêmicos versus pirrônicos”. In: Sképsis, Ano IV, N. 7, pp. 5-55.
BURNYEAT, M. F. (2010) “Pode o cético viver o seu ceticismo?” In: Sképsis – Revista de Filosofia n. 5, pp. 201- 41. 
SCHVARTZ, Vitor H. (2010). “Epokhé e Lógos no pirronismo grego.” In: SILVA FILHO, Waldomiro J.(org.). As Consequências do Ceticismo. São Paulo : Alameda, 2012.


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