quinta-feira, 7 de junho de 2012

Greve na Ufba: Política e Guerra


Paulo Fábio Dantas Neto

Os sintomas vêm de longe, mas desde a última sexta-feira evidencia-se mais claramente um esgarçamento grave das relações de convivência política no interior do movimento docente, com conseqüências preocupantes para as relações entre os professores, de modo geral. Nossa universidade vem sendo palco de uma encarniçada luta pelo controle sindical do movimento (APUB Lutas/ANDES x APUB/PROIFES), na qual nem sempre limites de civilidade e razoabilidade vêm sendo respeitados.
No momento, um dos lados dessa disputa parece estar batido. A direção do sindicato está sendo punida por sua desatenção para com dois fatos irrefutáveis: a intensificação do clima de insatisfação em movimentos sociais – que também atinge o dos professores – e a alteração do perfil do próprio corpo docente, com o ingresso de grande número de novos professores, pela via da ampliação do ensino superior público, promovido pela política educacional em vigor. A não sindicalização desses novos contingentes é reveladora do que digo. De outro lado, a oposição sindical, apostando no clima de insatisfação social e valorizando esses novos contingentes, preparou o laço e agora aperta as tenazes que lhe abrem caminho ao controle do movimento, sob resistência pífia dos combalidos adversários. 
Mais que a crônica de uma refrega, com o reconhecimento dos vencedores e a contagem dos mortos e feridos, é preciso fazer, no entanto, a crítica de um processo, com ele ainda em curso. Poderíamos dizer que o modo pelo qual tem se dado a disputa que está sendo vencida, com o aval da maioria nas assembléias, pela facção oposicionista, transforma-nos a todos (os que estamos em greve e os que estão sendo forçados a ela pela coerção aclamada nas assembléias) em professores de ciência política. Ou melhor, em fonte de dados para a ciência política.
Estudiosos da chamada teoria das elites encontrarão, na empiria dos últimos acontecimentos, a evidência de que em nosso meio é muito baixo o grau de “defesa jurídica”. Explico: a sociedade (no caso particular, a comunidade universitária) parece carecer de um “senso moral coletivo” que, segundo essa teoria, a protegeria do exercício despótico do poder, por quem detém e por quem almeja deter alguma posição de comando político em seu âmbito.
Mas também os interessados em teoria democrática acharão farto material de reflexão: tanto há exemplos de ataques a instâncias de democracia representativa (no caso a APUB e a sua diretoria eleita), quanto há desqualificações de instâncias de democracia direta, como a Assembléia Geral e o Referendo, atingidas, ora uma, ora outra, a depender da posição política de quem fala.
Talvez alguém diga, com certa razão, que se trata da “política como ela é”. Para alguns, aliás, a política não é mais do que a relação amigo/inimigo, ou a continuação da guerra por outros meios, tendo em comum com a guerra a lógica da destruição do inimigo. Para que essa concepção não seja “naturalizada” e nos leve a um realismo cínico, é preciso criticar e tentar reagir a condutas que, baseadas nessa concepção militar da política, levam, no presente momento, à divisão dos professores e ao enfraquecimento de algumas de suas instâncias decisórias, representativas, ou diretas. A divisão era um temor justificável há alguns dias atrás, mas agora passa a ser fato quase consumado. E não porque fosse inevitável, mas porque se revelou ser uma estratégia política, até aqui vitoriosa.
O centro dessa estratégia foi a alimentação de uma dicotomia artificial entre Assembléia e Referendo. Isso turvou o entendimento de que precisamos, ao mesmo tempo, dos dois.
O Referendo, por definição, depende, para ter sentido, também da qualidade do debate que o precede, mas principalmente da quantidade dos que dele participam. Como sabemos, no caso do que se realiza ontem e hoje, o debate precedente foi quase zero e a participação tem sido pequena (ou bem abaixo do que poderia ser), porque a facção da elite sindical que o promoveu, através da Diretoria da APUB, foi incapaz de debater com qualidade e mobilizar em quantidade; e porque a facção de contra-elite denominada de Oposição Sindical, que passou a dirigir a Assembléia através do Comando de Greve, simplesmente decidiu boicotá-lo.
A Assembléia, para cumprir papel construtivo, dependeria também de presença expressiva de professores, mas principalmente da qualidade da discussão que propiciasse entre os presentes. Tem cumprido a contento o quesito da quantidade, pois é inegável que têm se realizado assembléias com grande número de pessoas, mas adota procedimentos que matam qualquer possibilidade de discussão real.
Na assembléia de ontem, depois de duas horas de informes uníssonos e saudações reiterativas, a ampla maioria dos presentes decidiu que deveria votar pela continuidade da greve antes de discutir a pauta e antes de avaliar a mobilização. O argumento vencedor foi o de que os informes eram suficientes para a decisão. Após a votação – que só não foi unânime porque alguns se abstiveram em face da ausência de discussão - passou-se ao ritual da pauta, não sem antes a platéia ser brindada com mais quase meia hora de novos “informes”. Em suma, clima aclamativo, onde deveria haver debate e decisão derivada dele.
O lado até aqui vencedor elegeu a Assembléia como ícone e o referendo como a Geni. Quem ouviu com paciência os chamados informes feitos à Assembléia de ontem, antes da votação da greve, pôde ver que pouco se falou do governo, da política nacional, de política econômica ou de política educacional. O alvo era o referendo, que precisava ser desmoralizado. Por que?
Não tenho resposta irrefutável e não quero escrever sobre intenções alheias. Mas é inquietante que se tenha optado por esse caminho quando havia outro, de viabilidade cristalina: usar a mobilização obtida pelas massivas assembléias para resolver em favor da greve também o Referendo. Além de levantar os braços, ir às urnas para promover a unidade pela conciliação das duas instâncias de democracia direta, através de uma maioria indiscutível. Sem haver lugar para a discussão desse caminho, tomou-se o da dicotomia. Terá sido porque o da unidade entre Assembléia e Referendo obrigaria à convivência de opiniões divergentes num mesmo movimento e isso atrapalharia a eficácia da operação político-militar? Não posso seguir quem assim pensa. A meu ver seria caminho melhor para um movimento democrático aquele que nem foi discutido.
Penso que a cada um de nós cabe como decisão individual intransferível, aderir, ou não, à lógica político-militar que tem predominado. E cabe também a escolha de reagir por um caminho político ou pelo abandono da política, seja aceitando a lógica bélica, seja dando de ombros. Da minha parte insisto que a política é o caminho: para que o contraditório de expresse de modo construtivo, tanto as assembléias quanto o referendo precisam de participação ampla, politicamente livre, consciente e prevenida contra a lógica da guerra. Do referendo ainda há tempo de participar durante o dia de hoje. Quanto a Assembléias, bem, supõe-se que haverá várias, pois a greve promete ter vida longa. Acho bom não abandoná-las, para que do mesmo modo que agora se incinera o referendo em prol da Assembléia, amanhã não se possa, também em nome da lógica político-militar, incinerar a própria Assembléia em prol de puras razões de comando. 

Paulo Fábio Dantas Neto – professor do Departamento de Ciência Política

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