domingo, 22 de abril de 2012

CONTRIBUIÇÃO DA PESQUISA QUALITATIVA À PESQUISA SOCIAL


Antonio Durval Campelo Barauna


A pesquisa qualitativa remete aqui a um espaço de práticas relativamente delimitadas e múltiplas. No que diz respeito à pesquisa social, nos referimos a uma definição restrita, ou seja, as pesquisa voltadas para o estudo dos problemas sociais e das práticas profissionais e institucionais para resolver estes problemas.
A pesquisa qualitativa reivindicou e conquistou “uma autoridade” na esfera da pesquisa fundamental, no trabalho de elaboração teórica ou conceitual, particularmente no âmbito da teorização enraizada, ou do interacionismo simbólico, de tal forma que essas opções teóricas estão, agora, completamente assimiladas à pesquisa qualitativa.
Aparentemente, é somente devido à institucionalização da pesquisa qualitativa no campo universitário e à pesquisa social no campo administrativo e que o problema da contribuição da pesquisa qualitativa à pesquisa social pôde se colocar como uma questão legítima e mobilizadora.
A pesquisa qualitativa situa, geralmente, sua contribuição à pesquisa social, na renovação do olhar lançado sobre os problemas sociais e sobre os mecanismos profissionais e institucionais de sua gestão. Ela se esforça por conferir novas funções à pesquisa social, no campo administrativo ou político, bem como produzir um novo discurso sobre o social, que esteja em consonância com a vida democrática. Essa perspectiva não foi unânime.
Segue argumentações sobre o papel e o lugar da pesquisa e do pesquisador frente à administração e à gestão social ou, de modo mais geral, sobre o papel e o estatuto do cientista em relação ao político, para retomar a formulação de Weber (1959).

Uma releitura dos problemas sociais

A contribuição da pesquisa qualitativa à pesquisa social é geralmente definida por ruptura ou por oposição à pesquisa quantitativa ou estatística. A consideração, pela pesquisa qualitativa, da multiplicidade das perspectivas e dos agentes compondo cada uma das categorias, obriga a romper a unidade artificial da categorização estatística e a revelar uma diversidade de situações, uma pluralidade de atores que se adaptam de maneiras variadas a situações diferentes, mobilizando um repertório variado de recursos.
A utilização das estatísticas na pesquisa social é, assim, considerada como equivalente a uma leitura burocrática e institucional, que só retém dos fenômenos aquilo que pode ser classificado, operacionalizado e organizado.
A crítica é baseada no duplo plano da validade das medidas e da representatividade dos dados e das estatísticas construídas pela pesquisa social, que se associa a uma visão administrativa e tecnocrática.  (pg. 95/97).
Introduz-se assim, uma dúvida sistemática sobre as categorias de percepção, definição e interpretação dos problemas sociais construídos pela pesquisa social tradicional, que busca determinar, pela medida, a gravidade dos problemas e das deficiências, baseando-se numa definição objetiva e unívoca dos fenômenos. As operações estatísticas têm a desvantagem de produzir uma visão simplificada, e mesmo simplificadora dos problemas, elas conseguem deixar escapar os elementos pertinentes ou significativos dos fenômenos a analisar.
A pesquisa qualitativa , pelas questões que ela aponta, introduz um novo sentido aos problemas; ela substitui a pesquisa dos fatores e determinantes pela compreensão dos significados. Ela opera um duplo deslocamento na pesquisa social qual seja, da instituição à comunidade, e do profissional ao usuário. Atenta às especificidades socioculturais das clientelas e dos usuários, a pesquisa qualitativa força a repensar o estudo das necessidades não mais segundo indicadores de medida, mas sim, segundo as especificidades socioculturais dos meios de vida.
A pesquisa qualitativa não faz senão reintroduzir um novo ponto de vista: ela propõe outra maneira de intervir e gerir.
De um ponto de vista qualitativo, os sujeitos sociais interpretam sua situação, concebem estratégias e mobilizam recursos.
Ao substituir as categorias administrativas dos conceitos “sensitivos”, a pesquisa qualitativa favorece também o emprego de novas perspectivas sobre o social e a produção de interpretações mais próximas dos contextos das situações. O estudo qualitativo das problemáticas sociais pode, assim, evidenciar processos que a abordagem quantitativa não consegue delimitar, ou toma como negligenciáveis.
Várias pesquisas do tipo qualitativo introduzem a questão do poder no estudo dos problemas sociais, por meio da análise da construção das representações sociais e dos processos pelos quais determinadas definições conseguem se impor e ser socialmente reconhecidas como legítimas.

Um exemplo: a pobreza

A pobreza constitui um tema clássico e relativamente bem estruturado da pesquisa social tradicional. A análise quantitativa constrói categorias estatísticas, divide os indivíduos em classes, em função de critérios econômicos e de variações de renda.
A pesquisa etnográfica sobre a pobreza apresenta um quadro da vida dos pobres, geralmente, muito contrastado em relação à imagem que se desprende da análise estatística da pobreza. Preocupada em descrever o mundo social do ponto de vista dos sujeitos, a etnografia da pobreza procura dar conta da multiplicidade dos caminhos e das trajetórias no interior mesmo do universo que se considera homogêneo. Esse procedimento tende também a mostrar as similitudes entre esse mundo e o nosso, consideradas como insignificantes pela análise tradicional.
Essa exigência do “olhar qualitativo”, para o estudo da pobreza, foi imposta na França, com o objetivo de avaliar a eficácia do programa de renda mínima de inserção, na luta contra a pobreza. O procedimento qualitativo foi imposto para delimitar as dinâmicas sociais dentro do programa do RMI.
A pesquisa qualitativa permitiu “reconhecer a distância entre o que dizem as representações institucionais e as elaborações produzidas pelos tores, do dispositivo a propósito dos beneficiários”. Ela forçou os pesquisadores a se libertarem da lógica contábil dos contratos de inserção, e também favoreceu a análise “do modo como se desencadeia, ou não, uma trajetória social, a partir da sucessão dos contratos em relação a um mesmo beneficiário”.
Levando a descobrir itinerários e futuros diferentes, o procedimento qualitativo busca também ajudar a “construir intervenções-alvo, orientadas para a prevenção, assim como para um acompanhamento visando organizar as condições de uma volta ao emprego”, pois a consideração do ponto de vista dos sujeitos sobre a sua própria condição constitui uma condição prévia “para melhor adaptar a ajuda que é proposta” (p. 97/101).
Além de permitir uma descrição mais apurada e exaustiva da realidade social, a pesquisa qualitativa visa descobrir, por trás das categorias administrativas e estatísticas-atores, isto é, sujeitos detentores dos recursos, e capazes de iniciativas, projetos, estratégias. Esse novo olhar obriga a modificar o questionamento sobre a pobreza. A metodologia qualitativa não se reduz mais, aqui, a uma simples técnica de coleta de dados; ela desempenha um papel na renovação da problemática da pobreza, tal como um conjunto das problemáticas sociais.

Os mecanismos institucionais e profissionais

O procedimento qualitativo traz uma nova visão, um novo questionamento permitindo reconceituar as problemáticas sociais. A pesquisa qualitativa impõe um distanciamento das categorias administrativas, e, por vezes, o seu reexame.
Uma tradição de pesquisas qualitativas se implantou, sobretudo, nos Estados Unidos, relativamente ao estudo dos processos de institucionalização ou de desistitucionalização de populações definidas: as pessoas idosas e as pessoas sofrendo de doenças crônicas ou mentais. Em cada caso, a abordagem qualitativa se revelou necessária para explorar as ligações entre o fardo do cuidado e a decisão de institucionalização.
O procedimento qualitativo, tanto pela observação participante, ou pelas entrevistas em profundidade, revelou-se produtivo no estudo dos meios institucionais, tais como os estabelecimentos, ou unidades de serviço, hospitalares, escolares os de serviços sociais.
O estudo qualitativo possibilita, então, evidenciar as regras morais e sociais que orientam essas ações.
A abordagem qualitativa se esforça por dissociar o discurso administrativo do profissional, bem como por tornar complexas suas análises, superando a leitura muito frequentemente individualista dos problemas sociais, pelas administrações públicas. A abordagem qualitativa leva, geralmente, om pesquisador a considerar o descompasso entre as definições institucionais ou profissionais das situações e aquelas dos sujeitos que a vivem.
A pesquisa qualitativa parece tanto mais necessária no campo da saúde e dos serviços sociais, que uma tradição de pesquisa aplicada tende a retomar exatamente as categorias e as interpretações produzidas pelas organizações industriais ou comerciais e a generalizá-las, ou a aplicá-las nas organizações profissionais de serviços (pg.101/105).
Deve-se salientar que vários dos princípios constitutivos da análise qualitativa foram definidos ou estabelecidos devido a pesquisas etnográficas efetuadas no interior de burocracias de tipo profissional. A maioria das pesquisas qualitativas defende a tese de uma dupla cultura: a das clientelas ou dos usuários, e a dos agentes profissionais.
A pesquisa qualitativa está em total desacordo com qualquer projeto de uniformização dos serviços e de padronização dos programas, pois ela postula a pluralidade das situações e dos contextos, defendendo, em certos casos, a unicidade das situações e a obrigação de estar-se atento à maneira particular e específica como os sujeitos vivem sua situação, à forma como a situação evolui e afeta a sua vida pessoal e suas relações com seus próximos.
A pesquisa social tradicional se empenha frequentemente, em traduzir seus resultados de tal modo que eles possam ser utilizados pelos administradores, planejadores ou por aqueles que decidem.
A pesquisa qualitativa se opõe à utilização da pesquisa social sob uma perspectiva de engenharia social, uma vez que esta pressupõe uma aplicação direta dos resultados da pesquisa nos processos de gestão e decisão. Como a pesquisa qualitativa é mais interessada nos significados da ação, na pluralidade das perspectivas e na diversidade das construções sociais, ela permanece cética diante de toda definição descontextualizada dos fenômenos sociais, e de toda racionalidade formal que tende a impor uma concepção unívoca da realidade social.
A pesquisa qualitativa pode servir de base para a implantação de novas estruturas que levem em conta a capacidade dos sujeitos de mobilizar uma diversidade de recursos de apoio, auxílio e ajuda mútua.
No entanto, essa defesa da contribuição da pesquisa qualitativa não é unânime. Alguns pesquisadores duvidam que a pesquisa qualitativa possa desempenhar o referido papel; eles apontam os seus limites metodológicos e questionam a sua validade. (pg.105/109)
O caráter antinstitucional, dominante em muitas pesquisas qualitativas, corresponde, segundo Goulldner, a uma desqualificação dos interventores de primeira linha, e remete à disputa entre “as antigas e novas elites, para o controle dos serviços sociais e os serviços de auxílio social”. A pesquisa qualitativa em pesquisa social seria, assim parte integrante dessa disputa revelada por Gouldner.
A força de atração dos resultados da pesquisa qualitativa permite, assim, evidenciar o pitoresco e o anedótico. Para Silverman, a pesquisa qualitativa, com seu projeto de recolher e descrever experiências dos grupos excluídos ou desfavorecidos, frequentemente cai no “romantismo”, sem sempre ver ou analisar como a experiência é organizada em formas particulares e precisas de representação.
Para Dingwall (1980), a pesquisa deve produzir generalizações válidas e não tentar impressionar a galeria. A mesma ideia é retomada por Silverman. O que caracteriza um método, segundo Hammersley, não é, primeiramente, seu objeto, mas sim os procedimentos empregados, os quais devem ser tornados públicos e submetidos à avaliação da comunidade científica.
Logo, argumenta Hammersley, o procedimento qualitativo não pode aspirar a um nível metodológico ou epistemológico superior ao da pesquisa quantitativa. Ele não oferece-diz ele- “nenhuma solução mágica aos problemas metodológicos com os quais se defrontam toda a pesquisa”.
Para Lidz (1989), a importância atribuída ao ponto de vista do ator apresenta outro limite.  No limite, o pesquisador está mais inclinado a trazer o testemunho daquilo que compreendeu, e também a defender o informante, do que a se entregar a uma análise crítica de suas fontes e observações.
Devido à cumplicidade do pesquisador com o universo social no qual ele é um ator, o conhecimento que ele produz é, de certa forma, “cativo” da perspectiva que ele compartilha com seus interlocutores. Essa situação remete à questão mais geral da validade dos dados, decorrente da pesquisa qualitativa, em que o pesquisador é o próprio instrumento da coleta dos dados, particularmente na observação participante. (pg. 109/113).
O questionamento sobre a pesquisa qualitativa não se limita apenas às questões de validade, mas se estende a uma indagação mais ampla sobre a sua pertinência no plano social. Podem dois tipos de pesquisa, a qualitativa e a social, harmonizar-se?
Pelo fato de o primeiro destinatário da pesquisa qualitativa ser a comunidade científica – que deve avaliar a sua validade -, a pertinência social só pode, nessas circunstâncias, ser indireta secundária, ou difusa, mais do que direta, imediata ou específica.
A pesquisa e a prática obedecem a ritmos e regras diferentes, em que os pontos de intersecção parecem bastante raros.
Ao se inserir no campo da pesquisa social, a pesquisa social, a pesquisa qualitativa é obrigada a abandonar as suas exigências metodológicas e seu projeto de conhecimento, para se conformar aos objetivos da pesquisa social, que consistem em encontrar respostas para os problemas sociais.

Para além de uma crítica metodológica

As críticas formuladas pelos defensores da pesquisa qualitativa, em relação a análises estatísticas na pesquisa social, derivariam da fraqueza do capital escolar ou científico dos pesquisadores qualitativos, desejosos de estabelecer uma legitimidade intelectual num outro campo, do que no campo propriamente universitário ou científico.
Mais que um capital escolar ou cultural, a pesquisa qualitativa é considerada, nesse raciocínio crítico, como um sistema de normas e valores, cuja contribuição à pesquisa social é valorizada enquanto ideologia científica e sociologia espontânea, com “sua visão de mundo, suas referências teóricas, seus centros de interesse e seus esquemas de classificação”.
De acordo com essa interpretação crítica, a pesquisa qualitativa na pesquisa social permite reunir, por seu caráter relativamente indeterminado, uma série de “ideologias moles”, e pode suportar usos diferentes (pg.113/119).

Conclusão

Nessa reflexão sobre a contribuição da pesquisa qualitativa à pesquisa social, encontramo-nos diante de duas teses que se opõe:
POSITIVA- a inserção da pesquisa qualitativa no campo da pesquisa social modifica esta última, faz romper ou recoloca em questão suas categorias espontâneas e administrativas de percepção e análise dos problemas sociais.
NEGATIVA- a relação da pesquisa qualitativa com a pesquisa social produz um saber, cuja validade científica permanece frágil e incerta.
Sem querer reconciliar as duas teses, eu entendo que a contribuição da pesquisa qualitativa no campo da pesquisa social pode ser interpretada como um processo de inovação intelectual, remetendo ao que Bem-Davi (1991) designa como uma “hibridação de papéis”.
A pesquisa qualitativa pode ser concebida como a transposição de uma bagagem de conhecimentos universitários a um novo campo, que é o da pesquisa social. Contudo persiste uma questão: Essa inovação intelectual pode ser compreendida como uma inovação científica e pode acarretar inovações sociais? 

Retirado de ‘Contribuição da pesquisa qualitativa à pesquisa social’ de Lionel-Henri Groulx

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