quinta-feira, 28 de maio de 2015

HIPOTIPOSES PIRRONICAS – SEXTO EMPÍRICO CAPÍTULO VIII – FRAGMENTOS 16 e 17 – O CÉTICO PERTENCE A UMA ESCOLA?

                                                                                       Antonio Durval Campelo Barauna


[16] Seguimos o mesmo caminho ao responder a questão sobre se o célico pertence a uma escola. Se dizemos que uma escola é uma inclinação a seguir uma porção de dogmas que se seguem uns aos outros assim como seguem as coisas aparentes, e dizemos que um dogma é o assentimento a algo que é não-evidente, então diremos que o cético não pertence a uma escola. [17] Mas se declaramos que uma escola é a conduta que segue um raciocínio determinado de acordo com aquilo que aparece, raciocínio este que mostra como parece possível viver corretamente (e tomamos corretamente não no sentido de "segundo a virtude", mas em um sentido mais amplo), e que tende a nos dar a possibilidade da suspensão, diremos, então, que o cético pertence a uma escola. Pois nós seguimos um, raciocínio determinado que nos mostra, de acordo com a aparência, como viver segundo os costumes tradicionais, as leis, os modos de vida e nossas afecções próprias.



Os fragmentos 16 e 17 das Hipotiposes Pirronicas expõem duas posições que nos levam a refletir sobre se o ceticismo constitui ou não uma ‘escola’ no sentido clássico aplicado às correntes filosóficas, o que constitui um tema fundamental que tem ocupado os estudiosos do ceticismo.
O ceticismo, pela sua própria natureza, se diferencia do dogmatismo, para o qual a verdade é conhecida ou que é impossível conhecê-la, o que não deixa de ser a admissão de uma outra verdade. O cético investiga, estando sempre em busca, não admitindo a existência de ‘verdades absolutas’, opondo-se desta forma ao dogmatismo, para o qual o homem é capaz de atingir a verdade absoluta e indiscutível. Segundo Burnyeat “Podemos começar, como fazem os próprios céticos, pelos argumentos. Sképsis significa investigação, exame, e o ceticismo pirrônico é em primeira instância uma prática muito desenvolvida de investigação argumentativa, formalizada de acordo com uma quantidade de modos ou padrões de argumento” (BURNYEAT, 2010, p. 204). 
Na antiguidade, o termo dogma estava ligado ao que parecia ser uma crença ou convicção, algo irrefutável, uma doutrina. Assim, o fragmento 16 nos dá uma ideia de escola como doutrina, aproximando-se do dogmatismo ou crença, da qual a figura do cético é logo afastada pelo autor. Esse modelo aparece como contraponto ao ceticismo pirrônico de Sexto Empírico, que se identifica, a nosso ver com a descrição contida no fragmento 17, na qual é incluído o cético, pois admitidas as condições ali descritas, o autor conclui afirmando: “diremos, então, que o cético pertence a uma escola”.
O ceticismo limita-se à observação e investigação dos fenômenos, por acreditar não ser possível formar conhecimentos plenos e definitivos, ou seja, alcançar uma ‘verdade absoluta’, e por isso mesmo transmitir essa verdade através de escritos ou ensinamentos típicos de uma escola ou doutrina. Segundo Schvartz, “O dogmático profere dogmas e o cético questiona esses dogmas. Ao dogmatizar, o dogmático, nas palavras de Sexto Empírico, ‘põe algo como real’, ‘como verdadeiro’, pretende dizer como as coisas são em si mesmas, isto é, na sua natureza, dá assentimento a algo não evidente (ádelon).  Já o cético nada põe como real, não pretende dizer verdade alguma em seu discurso nem nele exprimir a natureza das coisas; tampouco dá assentimento ao não evidente (SCHVARTZ, 2010, p. 75-76).
Sobre a relação entre dogmáticos e céticos, Burnyeat diz que “O consentimento é o gênero; a opinião, ou a crença, é uma das suas espécies, a qual concerne a questões da existência real em contraste com as aparências. Os dogmáticos, cuja infindável variedade de opiniões sobre a existência real provê ao cético as suas armas bem como os seus alvos, são simplesmente os que crêem; na medida em que é justificada a leitura na conotação moderna de ‘dogmático’, i.e., a pessoa com um obstinado e irracional apego às suas opiniões, isto não pertence ao significado central do termo grego, mas à defesa argumentada do cético, à qual deveremos chegar, de que todas as crenças são irracionais. Todas as crenças são irracionais precisamente por que, como estamos vendo agora, toda crença diz respeito à existência real em oposição à aparência” (BURNYEAT, 2010, p. 207-208)
Aquele que admite qualquer certeza, ou até a impossibilidade de alcançar a certeza, o que não deixa também de ser uma ‘certeza’, e diante de tal ‘verdade’ alcançada, vê a possibilidade de transmiti-la, através de uma ‘escola’ ou doutrina, é dito ‘dogmático’. O dogmatismo deve ser compreendido, filosoficamente, em relação ao problema do conhecimento e dos meios que este utiliza para chegar a uma resposta, uma verdade. Assim, podemos vê-lo em dois sentidos principais, que se misturam, como a afirmação da possibilidade de alcançar a realidade em si mesma, e a confiança nas habilidades humanas, especialmente na razão, como meio de acesso à verdade.
O ceticismo questiona, e os questionamentos giram em torno da verdade, acreditando que nem tudo é como se pensa ser.  A dúvida é o principal mecanismo do ceticismo, o individuo é movido pelas indagações e incertezas.
Nas próprias Hipotiposes referindo-se ao estudo das ciências naturais, típicas pela busca e ‘comprovação’ de verdades, Sexto Empírico afirma que, ao responder a questão sobre se o cético deve dedicar-se a tal estudo, que eles não podem estuda-las de maneira a poder fazer afirmações convictas a respeito dos pontos dogmaticamente tratados por elas, e sim com o objetivo de poder colocar diante de todo argumento um outro argumento, ou seja, com o objetivo de questioná-la. É desta maneira que o cético lida com a parte lógica e a parte ética daquilo que se chama filosofia.
A partir do pensamento de Pirro, reconhecido pelos céticos antigos como o inspirador do ceticismo, Sexto Empírico escreveu as Hipotiposes Pirronicas. Talvez por coerência, e por considerar o ceticismo uma atitude, uma forma de viver, Pirro nada tenha escrito, já que a atitude e forma de encarar a vida são inerentes ao individuo e às circunstâncias em que ele vive, e escrever o que é ou pensa o cético, criando uma ‘escola’ ou doutrina, estaria levando a ditar ‘verdades’ alcançadas, o que contrariaria o ceticismo como forma de ser e de investigar em busca de respostas. Esta posição coloca o fragmento 17 das Hipotiposes mais próximo da prática no ceticismo pirrônico.
O fato de Pirro não haver deixado nada escrito – o que dele se conhece é a partir de escritos dos seus discípulos, principalmente Timon – dá lugar a diferentes interpretações do seu legado, o que contribui de certa forma, para que esse legado esteja mais sujeito a críticas e entendimentos diferenciadas, fato que se reforça por sabermos que muitos dos que escreveram sobre o pensamento pirrônico fizeram isso muito tempo depois, com base nos escritos de discípulos.
Desta forma, as informações que temos sobre ele se apresentem, muitas vezes, contraditórias, podendo-se até falar em dois Pirros: o da tradição acadêmica, conservado por Cícero e o da tradição cética, trazido até nós, principalmente por Sexto Empírico, que aqui comentamos. Sobre a visão de Cícero, Bolzani nos diz que “os testemunhos a respeito de Pirro não têm apenas as características mencionadas. Contrariamente às fontes acima citadas, encontramos também um Pirro que dificilmente poderia ser visto como um cético. É o que nos informam alguns textos filosóficos de Cícero: Pirro é defensor de uma doutrina da “indiferença” em relação a tudo, doutrina que, segundo Cícero, sequer merece ser comentada (cf. Sobre os Fins, II, 35 e 43; Sobre os Deveres, I, 6). Mas Pirro seria, ao mesmo tempo, um moralista severo que crê na suprema virtude (Sobre os Fins, IV, 43). Agora, se consideramos o testemunho ciceroniano como fonte mais autorizada, dificilmente podemos ver em Pirro um cético, ainda que apenas em gérmen. E a reivindicação, pelos pirrônicos posteriores, do pensamento de Pirro, terá de ser interpretada como uma deturpação do real sentido de sua posição” (BOLZANI, 2011, p. 7-8).
Temos assim que Pirro simboliza um referencial para as diversas interpretações do seu pensamento.  Ao contrário dos que se filiam ao fragmento 16 das Hipotiposes, ele não estabeleceu uma doutrina ou escola propriamente dita – como tratamos as ‘escolas’ filosóficas, por exemplo – e sim um atitude, uma forma de ser, que podemos tomar em defesa do dito ‘pensamento cético’. Assim, podemos tomar como contraditória a afirmação de Bolzani, segundo a qual “Dentre os poucos nomes de pensadores céticos pirrônicos que nos chegaram, figuram com especial importância Timão de Flionte, discípulo direto de Pirro, Enesidemo, Agripa e Sexto Empírico, este já, ao que parece, no segundo ou terceiro século d. C.. É dele o que nos restou dos textos pirrônicos: suas Hipotiposes Pirronianas (HP) são uma Suma do pirronismo” (BOLZANI, 2011, p. 6), visto que, a admissão da própria existência de ‘pensadores céticos’ pressupõe a possibilidade de ‘transmissão’ doutrinária de um pensamento cético, o que contrariaria a visão de Pirro.
De qualquer forma, pode-se confirmar que “Uma das questões que mais têm interessado aos historiadores modernos e contemporâneos do ceticismo antigo é aquela que concerne às diferenças entre as duas tradicionais correntes céticas, denominadas acadêmica e pirrônica. Interesse plenamente justificado, pois se trata, na verdade, de questão clássica, posta já pelos antigos, como nos informam as Noites Áticas de Aulo Géllio: “é uma antiga questão, considerada por muitos escritores gregos, em que e quanto diferem filósofos pirrônicos e acadêmicos” (BOLZANI, 2011, p. 5).
Podemos concluir, à luz dos fragmentos 16 e 17 das Hipotiposes, que o ceticismo de Pirro, trazido por Sexto Empírico “é a conduta que segue um raciocínio determinado de acordo com aquilo que aparece”, não se prende a dogmas ou afirma a impossibilidade de se alcançar a verdade, situação que, certamente, cria dificuldades à elaboração de escritos e interpretações.  O ceticismo pirrônico afasta-se da ideia de escola como “uma inclinação a seguir uma porção de dogmas que se seguem uns aos outros assim como seguem as coisas aparentes”, e ao admitirmos que um dogma é o assentimento a algo que é não evidente, fica claro o afastamento do ceticismo pirrônico do que conhecemos como um modelo clássico de escola filosófica, embora possamos por  sempre em questão o fato de que, ao se escrever sobre o ceticismo, tentando de alguma forma sistematiza-lo, como fez  Sexto Empírico, não se estaria fazendo com que ele se aproximasse mais de uma ‘escola’ no modelo clássico, como afirmamos antes, se afastando da ideia de uma prática, um modo de viver, como praticou Pirro.

Referencias Bibliográficas
BOLZANI FILHO, Roberto (2011). “Acadêmicos versus pirrônicos”. In: Sképsis, Ano IV, N. 7, pp. 5-55.
BURNYEAT, M. F. (2010) “Pode o cético viver o seu ceticismo?” In: Sképsis – Revista de Filosofia n. 5, pp. 201- 41. 
SCHVARTZ, Vitor H. (2010). “Epokhé e Lógos no pirronismo grego.” In: SILVA FILHO, Waldomiro J.(org.). As Consequências do Ceticismo. São Paulo : Alameda, 2012.


Sobre a greve na Ufba

Paulo Fábio Dantas Neto


Escrevo aos que posso alcançar sugerindo irmos à Assembleia convocada pela APUB para a tarde de hoje, dia 28, no PAF 1. Na pauta, como sabemos todos, o indicativo de uma greve que pode vir a ser deflagrada inclusive a partir da abstenção de uma talvez maioria dos professores, que, pelo que posso ver, não acredita na eficácia de uma eventual reiteração desse desgastado expediente. Não só me incluo entre esses céticos como, mais do que cético, declaro-me preocupado com o efeito erosivo que essa greve, se consumada, terá sobre uma nascente e ainda precária teia de solidariedade social que a UFBa começou, nesta semana, a construir em torno de si, para enfrentar a crise que a atinge. Começo, portanto, pelas razões do nosso lugar particular. Até porque são no mínimo duvidosos os sinais de que estejamos mesmo diante da eminência de uma greve nacional unificada das IFES, como a que se especula.

Foi expressiva a mobilização da nossa comunidade interna – especialmente dos nossos estudantes – em respaldo ao gesto da Reitoria de dar ciência, à comunidade externa, dos perigos que cercam a instituição, no atual contexto de crise. O ato público que reuniu quase mil pessoas na última segunda-feira mostrou que o caminho a ser seguido é mesmo o da busca incessante de respaldo social para garantir meios de  funcionamento da universidade. Mostrou também que há que se ampliar o apoio no mundo político, que nessa hora de crise, não basta seguir circunscrito, como esteve naquele ato, aos partidos e lideranças que tradicionalmente têm relação mais estreita com os movimentos de estudantes, professores e servidores.

Se nesses tempos de murici já é complexa a empreitada de obter apoio social e político em defesa da UFBa ela se tornará ainda mais difícil se nesta quinta-feira os professores cuidarem de fazer, eles mesmos, aquilo contra o que a sociedade baiana estava sendo chamada, na segunda-feira, a se mobilizar. A atitude de parar a universidade nesse instante de crise jogará um véu de ambiguidade sobre o discurso público cristalino de três dias antes. Nesse ponto, das relações entre universidade e sociedade, residem, creio, os motivos mais relevantes pelos quais devemos mudar o disco que toca na nossa vitrola (o uso aqui de um termo anacrônico não é casual). Necessidade que inclui muito propriamente o caso da UFBa mas não se resume a ele.

Acostumamo-nos com uma relativa indiferença social perante os prolongados movimentos grevistas de docentes de universidades públicas. Como se nossa práxis corporativa fosse irrelevante para o cidadão comum, permitimo-nos, de tempos em tempos, passar meses entregues a diletantes atividades de proselitismo ideológico e a delirantes análises de conjuntura, biombos retóricos para pelejas sindicais intestinas, sob a complacência das instâncias de direção da instituição e sem ameaças sistêmicas aos nossos salários de servidores públicos, pagos sempre, como se trabalhando estivéssemos.  Pensando bem, de fato, estivemos sempre trabalhando durante as greves, naquelas várias atividades que, uma vez interrompidas, nos trariam alguma sanção. Na prática suspendem-se apenas aulas da graduação e de um ou outro programa de pós, gestos políticos cujos custos são pagos por nossos estudantes. Pena – para a universidade - que as representações estudantis não venham falando em sintonia com esse interesse desrespeitado das suas bases.

Quem estiver prestando devida atenção ao que se passa no Brasil nos dias atuais não dará como certo que a indiferença pública em relação à nossa cultura grevista se manterá. Parar nossas universidades para resistir ao ajuste fiscal ou coisa que o valha, num momento em que o conjunto dos cidadãos está sendo chamado a pagar a conta da irresponsabilidade administrativa da facção dirigente da sua elite política é um gesto de alto risco para a sobrevivência da instituição que tanto defendemos: a chamada universidade pública, gratuita e de qualidade. Não se deve subestimar a possibilidade de que a universidade pública entre agora, de verdade (e não mais apenas em dramáticos discursos justificadores de greves e outros enfrentamentos) no rol de alvos da desconstrução de direitos que integram a atual pauta política conservadora que avança no Brasil. A suspensão da vida universitária normal, além de não produzir resultados políticos mais amplos, nem efeitos  em defesa da universidade, contribui para o desgaste da sua imagem pública, potencializando chances de sua inclusão noutro rol: do que pode ser negociado para tirar contas públicas do vermelho pelo lado da despesa e/ou para recompor a massa de capitais privados do setor, retraída pelo tilt de programas como o FIES.

A quem valoriza democracia e direitos sociais, o ar rarefeito do ambiente político e econômico do País aconselha cautela e não arroubos confrontacionistas. É ponto pacífico que o dito ajuste fiscal afeta negativamente interesses de trabalhadores (embora não apenas os deles) e ameaça políticas públicas socialmente inclusivas como a educação. Mas se não se fizer o ajuste? Penso que aí o cenário hoje ameaçador tende a se tornar trágico. Além da pressão imediata por mais cortes orçamentários, esse cenário de fracasso do ajuste converterá o que hoje são retrocessos parciais, restrições, contingenciamentos, cortes, em algo muito pior. O agravamento da crise - com a economia quebrada, o emprego em queda livre e, no setor público, as contas inviabilizadas e os salários dramaticamente aviltados - tende a trazer consigo, além de piores condições de trabalho, mais desigualdade e exclusão social e retrocessos políticos à democracia. Num cenário desses, a lógica dos mais fortes tende a predominar e a exumar tristes memórias sobre esquinas de regressão política e social. A história brasileira é severa pedagoga ao mostrar que em momentos assim a corda parte do lado mais fraco. Cabe matá-la, ou ignorá-la, por ela nos trazer más notícias? Por mais que a história nos assombre, precisamos manter olhos, ouvidos e mentes abertos às suas lições.

Não pretendo – nem teria como - fazer vaticínios. Desejo expressar inquietações que resultam da seguinte avaliação: meios de recusar esse ajuste e ao mesmo tempo evitar o cenário trágico não existem. Nem por amor ao perigo é possível dar ouvidos a escapismos retóricos como o de propor que o ônus recaia exclusiva, ou principalmente, sobre o andar de cima da sociedade. Afinal, como se pode propor isso ao mesmo tempo em que se avalia a conjuntura como de avanço da direita e das forças conservadoras? Avanço que, diga-se de passagem, é o desdobramento lógico da práxis daquela parte da esquerda que se tornou governo. Nessas circunstâncias, como viabilizar, por exemplo, o imposto sobre grandes fortunas que meio zombeteiramente José Dirceu sugeriu como opção ao ministro da Fazenda? O Congresso não o aprovará e imposto sem lei não é proposta para valer em contexto de democracia. Quem, portanto, amarrará o guiso no pescoço do gato?

Sem resposta a essa questão simples como podemos embarcar com bilhete só de ida numa greve supostamente nacional de resistência política a um ajuste cuja necessidade não se pode negar por uma argumentação racional? Como explicar essa posição política fora do nosso ambiente corporativo, nos variados ambientes sociais que frequentamos? E mesmo sob o ponto de vista corporativo, que projeção razoável pode ser feita, num contexto de uma crise como essa, sobre o destino de já difíceis negociações salariais e em torno da carreira, depois que uma greve for decretada previamente ao andamento suficiente da referida negociação e sem a participação de parcela importante das IFES?  Funcionará a greve como meio de pressão ou como pretexto providencial para o governo declarar interrompidas essas negociações? E uma vez interrompidas, ou não, em que termos serão retomadas, se o cenário for de agravamento da crise econômica? 

Sou insuspeito de simpatias pelo governo atual. Meu voto nas últimas eleições foi para a oposição, como muitos de vocês sabem, porque o tornei público. Mas nem por isso quero que o circo pegue fogo. Movimentos como o de nossa categoria precisam ser agentes de moderação nesse instante. Precisam saber usar mais a inteligência do que a sua superestimada força, não apenas porque devem ter responsabilidades face ao País como porque, se e quando o cabo de guerra partir, os segmentos que eles representam são os que terão mais possibilidades de perder terrenos já conquistados.

Por tudo isso penso que devemos ir à Assembleia e, argumentando, ou votando, tentar impedir essa greve. Não apenas dar de ombros, encerrar nossas cadernetas, incinerar 30% do semestre letivo e, na doce ilusão de que nos preservamos pessoalmente, permitir que minorias ativas e organizadas nos conduzam, sem delegação legítima para tanto, a uma aventura coletiva, em momento de tempestade.
Reconheço as dificuldades que nossas assembleias oferecem a quem deseja participar de modo independente, de uma discussão racional. Lógico que cada um é livre para decidir, individualmente e a qualquer momento, sobre os limites além dos quais sua participação perde o sentido. Ir a uma assembleia não significa compartilhar procedimentos que porventura julgue impróprios. A porta de saída é sempre uma opção quando, conforme o juízo consciente de cada um, alguma minoria ativa torna-se escassa maioria eventual e por isso ultrapassa os limites do razoável.

Não há também, nessa sugestão de comparecimento, nem a expectativa ingênua, nem o desejo interessado de que o protagonismo de minorias ativas seja substituído por outro modelo de direção. Elas são necessárias, como elite dirigente, a qualquer movimento, ou organização.

Mas espero que não nos resignemos ao fato de greves serem decretadas de cima para baixo, a partir de avaliações de cúpulas sindicais. Um movimento que já começa nacional dificilmente pode ser genuinamente nacional, tampouco democrático. Dele só pode sair mesmo a greve como caminho. Caminho único, compulsório, obsessivo, trilhado sem que tenhamos tido, em nossas escolas e faculdades, a oportunidade de pensar e fazer escolhas sobre alternativas de ação, após debates abertos e plurais, amplamente convocados e travados sem os rituais plebiscitários das assembleias.

Espero também que não deleguemos o indelegável, isto é, o exercício pleno e sem ilusões da parcela pessoal de influência possível de cada um de nós sobre uma eventual decisão tomada em nosso nome. Para ser legítima e ter suas decisões reconhecidas, a assembleia (ela própria uma minoria ativa, mais ampla) deve adotar procedimentos que não interditem o exercício dessa influência.


Paulo Fábio Dantas Neto – professor da FFCH/UFBA – Departamento de Ciência Política. Em 28.05.2015


sexta-feira, 9 de agosto de 2013

A Escola de Chicago - por Alain Coulon


                                                                                                                       Antonio Durval Campelo Barauna


Introdução

Entende-se por Escola de Chicago um conjunto de trabalhos de pesquisa realizado entre 1915 e 1940 na Universidade de Chicago. Vale salientar que essa denominação não implica uma corrente teórica comum, nem tão pouco uma homogeneidade de ideias; há grandes diferenças, entretanto bastantes características são comuns aos pensadores dessa Escola.
A expressão foi utilizada pala primeira vez muito tempo depois do começo desse movimento mais precisamente em 1930, quando Luther Bernard apresentou as diferentes escolas da sociologia existente.” (p.7)

Caracteriza-se pela empiria: “Com efeito, antes do aparecimento desses trabalhos empíricos, as investigações sociológicas eram orientadas para as 'pesquisas sociais', muito impregnadas de moralismo emais próximas do jornalismo investigativo que da investigação científica(...)” (p.8)

Foram diversas as contribuições dos sociólogos da Escola de Chicago, sobretudo “o desenvolvimento de métodos originais de investigação: utilização científica de documentos pessoais, trabalho de campo sistemático, exploração de diversas fontes documentais.” (p.8)

A Escola de Chicago é uma sociologia urbana, com a maioria dos seus trabalhos voltados para um problema político social mais importante: o da imigração e da assimilação de milhões de imigrantes à sociedade americana.


As origens

A Universidade de Chicago, mais especificamente, o departamento de Sociologia e Antropologia (unificados até 1929) é considerado o grande responsável pela origem da sociologia na América do Norte; considerada assim a Escola de Chicago “o berço da escola americana”.

O papel decisivo de Albion Small

Embora, enquanto sociólogo, Small não tenha tido grande influencia nas pesquisas e teorias sociais, este professor e primeiro dirigente do departamento de Sociologia e antropologia na Universidade de Chicago teve grande destaque pela sua excelente atuação administrativa na direção do departamento.
Como sociólogo, Small classificou a motivação humana em 06 categorias: “a saúde, o bem-estar material, a sociabilidade, o conhecimento, a beleza e a retidão” (p.15)

Um mérito também de Small foi a insistência na necessidade em objetivar as investigações sociológicas: “Ele achava que a sociologia era uma ciência, que se tratava de fundamentar com base não no discurso, mas nas pesquisas empíricas(...)(p.15)

O pragmatismo

Segundo o pragmatismo, a atividade humana deve ser considerada sob o ângulo de três dimensões que não podem ser separadas: biológica, psicológica e ética. Ao agir, i indivíduo persegue uma meta, tem sentimentos e emoções.” […] “O pragmatismo é na verdade uma filosofia da ação, mas também pode ser chamado de filosofia da intervenção social. Assim, Mead fez dele um instrumento social e foi muito ativo no movimento de reforma social, na medida em que achava que a consciência dos indivíduos se elabora por meio das interações e dos processos sociais.” (17-18).

O interacionismo simbólico (expressão utilizada pela primeira vez por Blumer, em 1937)

Não se pode negar, e se deve estudar a grande influência que o interacionismo simbólico teve sobre a sociologia produzida em Chicago; Segundo Blumer “as significações sociais devem ser consideradas como 'produzidas pelas atividades interativas dos agentes”. (p.19). O pesquisador deve compreender e analisar essas significações e para que isto de fato ocorra ele precisa ter acesso aos fenômenos particulares (que são as produções sociais significantes dos agentes). “O interacionismo simbólico, ao contrário [da concepção durkheiniana, que pensava as manifestações individuais como não pertencentes ao domínio da sociologia], afirma que é a concepção que os agentes têm do mundo social que constitui, em última instância, o objeto essencial da investigação sociológica” (p.20)

O que é “si”? A interiorização por parte do indivíduo, dos processos sociais de interação; É aprendida a construir o “si” através da interação do agente com os demais, sendo assim, os “si” tornam-se fenômenos sociológicos”;
A sociologia deve então analisar os processos responsáveis pela conduta individual dos agentes, baseado nas “interpretações do mundo que o rodeia”(ibidem)

As cinco hipóteses propostas a partir do interacionismo simbólico de Mead:
Vivemos em um ambiente simbólico e físico, simultaneamente;
“Temos a capacidade de tomar o lugar do outro' porque temos em comum com os outros os mesmos símbolos”- símbolos significantes/símbolos naturais
Temos a capacidade de prever, em grande medida, o comportamento dos outros indivíduos, uma vez que temos em comum uma cultura;

“O 'eu' é a resposta do organismo ás atitudes dos outros; o 'mim' é o conjunto organizado de atitudes que empresto aos outros. As atitudes dos outros constituem o 'mim' organizado, e reagimos perante isso como 'eu'. (COULON,P.21, apud MEAD)

“O pensamento é o processo pelo qual soluções potenciais são, antes de mais nada, examinadas sob o ponto de vista das vantagens e desvantagens que o indivíduo teria com elas em relação a seus valores e depois, finalmente, são escolhidas […]. Um ato, portanto, é uma interação contínua entre o 'eu' e o 'mim', é uma sucessão de fases que acabam cristalizando-se em um comportamento único.” (p.22)

Implicações metodológicas

No interacionismo simbólico, o conhecimento sociológico precisa estar apoiado no indivíduo. É com essa corrente teórica que o indivíduo [agente social] ganha destaque “ como interprete do mundo que o rodeia e, por conseguinte, pões em prática métodos de pesquisa que dão prioridade aos pontos de vistas dos agentes[...]. “ Para o interacionismo simbólico, um conhecimento sociológico adequado não poderia ser elaborado pela observação de princípios metodológicos que procuram retirar os dados de seu contexto para torná-los objetivos. Trata-se, ao contrário, de estudar a ação em relação com a realidade social natural em que se vive.”

o agente social ganha destaque “ pois é através do sentido que atribuem a objetos, indivíduos e símbolos que os rodeiam, que ele fabricam seu mundo social” (p.22)

Outras influência
-Ideias de Darwin (sobretudo nos estudos de Park)
-Teoria da relatividade de Einstein (sobretudo nos estudos de Mead)
-Forte influência religiosa: “estes laços com o protestantismo são importantes para compreender porque uma parte dos primeiros sociólogos da escola de Chicago tinham uma inclinação para o trabalho social e para as reformas sociais matizadas de cristã”

A sociologia da ação: é com esse formato e essa identidade que se constituem a Escola de Chicago uma vez que as tendências “reformadoras deram um impulso decisivo à sociologia: o de voltar para o trabalho de campo, para o conhecimento da cidade e a resolução de seus problemas sociais, não para uma sociologia especulativa, mas , ao contrário, para uma sociologia da ação.” ( p.23)

A rebelião de 1935

A partir de 1935, outras “correntes” sociológicas americanas passaram a também ganhar destaque: “Em 1937, dois anos depois da rebelião, a publicação da obra Talcont Parsons, The Structure of Social Action, confirmaria o surgimento de uma nova orientação teórica, radicalmente diferente da sociologia empírica de Chicago, que em seguida dominaria a sociologia americana durante um quarto de século” (p.27)


A imigração e as relações étnicas

O contexto social a qual a Escola de Chicago estava inserida é sem dúvida o grande responsável pela constituição dos conceitos que essa sociologia apresentou; tendo a imigração como pano de fundo dessas relações, “É sem dúvida a este interesse da sociologia de Chicago pela questão da assimilação dos imigrantes que se deve a existência vários dos grandes conceitos da sociologia americana, entre os quais a desorganização social, a definição da situação, a marginalidade, a aculturação” (p´.30)

Atitudes individuais e valores sociais
Atitudes individuais- características subjetivas dos indivíduos do grupo social considerado
Calores sociais- elementos culturais objetivos da vida social

Segundo os autores Thomas e Znaniecki a análise sociológica deveria levar em consideração esses dois conceitos: os valores do grupo social e as atitudes individuais:

“A atitude é um conjunto de ideias e emoções que se transformam em uma disposição permanente em um indivíduo e lhe permite agir de maneira estereotipada. Pode ser definida como 'o processo da consciência individual que determina a atividade real ou potencial do indivíduo no mundo social. A atitude é a contrapartida do indivíduo aos valores sociais[...]”
“Thomas e Znaniecki afirmavam que um fato social é uma combinação íntima dos valores coletivos e das atitudes individuais[...]”
“[...] o efeito de um fenômeno social depende do ponto de vista subjetivo do indivíduo ou do grupo e só pode ser calculado se conhecermos não apenas o conteúdo objetivo de sua suposta causa, mas também o significado que tem para os seres conscientes considerados...Uma cauda social é complexa e deve incluir ao mesmo tempo elementos objetivos e subjetivos, valores e atitudes.”(p.30-31)

O fato de se estudar as coisas individuais de um problema para em seguida seguir ao social tornou-se uma característica comum aos sociólogos de Chicago. A importância do conceito de atitude elaborado por Thomas e Znaniecki está diretamente ligada aos estudos relacionados aos imigrantes, sobretudo quando rejeitavam as ideias reducionistas à biologia, de que comportamentos individuais se desviantes às normas caracterizavam-se como problema fisiológico. “Thomas e Z. Contribuíram grandemente para rejeitar esse reducionismo biológico, mostrando que o Estado mental dos imigrantes não estava ligado a um problema fisiológico, e sim, diretamente, ás transformações sociais ocorridas em sua vida cotidiana […] Thomas esteve entre os primeiríssimos intelectuais americanos, junto com Franz Boas a criticar as teorias que explicavam as diferenças intelectuais e mentais pela pertença a uma raça: ' a variável real', dizia ele, 'é o indivíduo, não a raça' “. (p.32-33)

A desorganização social

O que é desorganização social? Segundo Thomas e Z. “uma organização social é um conjunto de convenções atitudes e valores que se impõe sobre os interesses individuais de um grupo social. Ao contrário, a desorganização social, que corresponde a um declínio da influência dos grupos sociais sobre os indivíduos, manifesta-se por um enfraquecimento dos valores coletivos e por um crescimento e valorização das práticas individuais. (p.34-35)
É interessante salientar que Thomas e Z. Entendem que a desorganização social acontece, sobretudo, por uma insatisfação. “Este é, evidentemente, um fenômeno e um processo que se encontra em todas as sociedades, mas que se amplifica quando uma sociedade sofre mudanças rápidas, sobretudo econômicas e industriais.” (p.35)
A partir desse argumento amplia-se o entendimento do que seja a desorganização social, uma vez que esta ocorre não somente por uma insatisfação. É claro que em toda a sociedade os fenômenos sofrem mudanças e não estão em total harmonia com os desejos e interesses de todos os grupos. A desorganização social é também “consequência de uma mudança extremamente rápida, de um adensamento da população urbana ou, ao contrário, de uma súbita desertificação. Mudanças tecnológicas importantes podem igualmente provocar uma desorganização, assim como catástrofes naturais, crises econômicas, políticas ou pessoais.” (p.35)
No caso da situação polonesa estudada por Thomas e Z., a desorganização não é devido a imigração, mas sim o fator impulsiona esta. “...o fato de imigrar para a América provoca uma reorganização.” (p.35)
“...o estado de desorganização social é provisório, precede um período de reorganização.” (p.35)
Dois tipos de desorganização:- familiar; - comunidade;
É nos estudos de Wiliiam F. Whyte que encontramos a contrapartida a este conceito de organização e desorganização social. Segundo este autor, a comunidade italiana, a qual pesquisou, poderia ser entendida como desorganizada se analisada sob a égide dos conceitos de Thomas e Z. Entretanto esta seria uma “sociedade organizada que 'possui sua própria organização, complexa, estruturada, com relações pessoais hierarquizadas, fundadas em um sistema de obrigações recíprocas.' Tratava-se, portanto, de uma organização social diferente, e não de uma falta de organização.” (p.38)

Desmoralização e assimilação

“Nem todas as manifestações de desvio são sempre um sinal de desorganização social: é possível também que se trate de um desvio individual. Thomas e Z., com efeito, faziam uma distinção entre a desorganização individual, que chamava de desmoralização, e a desorganização social.” (p.38)

A patologia individual não é considerada um indício de desorganização social.
A assimilação: “A assimilação, que é antes de mais nada um processo psicológico, segundo Thomas (que porém negligenciou, parece-nos, o aspecto político da questão, bem como o das condições de vida econômica do imigrante), que será completa quando o imigrante), será completa quando o imigrante tiver o mesmo interesse pelos mesmos objetos que os americanos de origem; dito de outro modo, na linguagem da etnomenologia, quando ele se tornar membro, ou seja, quando possuir o domínio da linguagem natural do grupo.” (p.40)
A delinquência surge da desmoralização do indivíduo; “quanto mais forte é a pressão da sociedade americana para uma assimilação completa dos imigrantes […]. Essa pressão produz então o contrário do fenômeno esperado, e surgem formas mais ou menos violentas de delinquência, porque não se pode separar, sem consequências, o indivíduo do seu grupo cultural e social de origem.” (p.40)

A definição da situação
“O indivíduo age em função do ambiente que percebe, da situação que deve fazer frente. Pode definir cada situação de sua vida social por intermédio de suas atitudes anteriores, que o informam sobre este ambiente e lhe permitem interpretá-lo. A definição da situação, portanto, depende ao mesmo tempo da ordem social tal como se apresenta ao indivíduo e da história pessoal deste. Sempre há um conflito entre a definição espontânea de uma situação por um indivíduo e as definições sociais que sua sociedade lhe oferece. (p.41)

As etapas do processo de desorganização-organização segundo Park:
Rivalidade (equilíbrio econômico) -  considerada a forma mais elementar de interação uma vez que é a interação sem contato; a ausência do contato entre indivíduos é o que favorece o surgimento de conflito e por seguinte o que faz surgir as etapas seguintes proposta por ele;

Conflito (ordem público)- é inevitável quando populações diferentes são postas em contato; é a considerada a tomada de consciência dos indivíduos a respeito da rivalidade (anterior) que estão vivendo: “De um modo geral , pode-se dizer que a rivalidade determina a posição de indivíduo na comunidade; o indivíduo atribui-lhe um lugar na sociedade” (p.43)

Adaptação (organização social)- considerada como mutação pela qual passa determinada sociedade em determinado contexto; há coexistência entre os grupos, porém estes continuam rivais em potência, aceitando suas diferenças; “As relações são organizadas com o fim de reduzir os conflitos, controlar a rivalidade e manter a segurança das pessoas.” (p.44)

Assimilação (personalidade e herança cultural) – é a sequência natural da adaptação; segundo Park é aqui que os contatos se multiplicam favorecendo uma maior solidariedade entre os indivíduos; “A assimilação é um fenômeno do grupo, no qual as organizações de defesa da cultura dos imigrantes por exemplo, ou os jornais de língua estrangeira tem um papel determinante. Portanto, é preciso estimular o desenvolvimento ao invés de combatê-los.

A noção de assimilação em Park: “Define a assimilação como um processo durante o qual os grupos de indivíduos participam ativamente do funcionamento da sociedade sem perder suas particularidades.”( p.45)

Aculturação e assimilação

“O conflito culmina na fase de adaptação, em que as relações entre superiores e subordinados são constantemente conflitantes. É por isso que , segundo Brown, nunca poderia haver uma assimilação completa da comunidade negra, sempre inferiorizada pela cultura e a ordem social brancas.” (p.52)

“Franklin Frazier (1932): o ciclo não se encerra com a assimilação, e sim com a existência de dois sistemas raciais distintos. Durante a última etapa do ciclo, cada uma das raças desenvolve suas próprias instituições sociais e ocupa zonas urbanas diferentes. Considera que já não se pode falar em negros como uma entidade homogênea, mas, ao contrário, é preciso distinguir entre eles diversos subgrupos, correspondentes a diferentes níveis socioeconômicos e repartidos geograficamente, segundo zonas concêntricas diferentes.” (p.52-53)

“Frazier considerava que certas etapas eram passíveis de se repetir ao longo de várias gerações sucessivas, pois a dialética do conflito de classes e da adaptação cultural prosseguia depois do fim da escravidão, que nã marcava o fim da intimidação e da violência: a adaptação limita, mas não elimina completamente o conflito.” (p.54)

A aculturação é um fenômeno pelo qual o indivíduo adquire a cultura do grupo.

A assimilação é um processo que engloba a aculturação, mas que supõe antes de mais nada uma completa identificação do indivíduo com o grupo.

“A última etapa da integração é o amalgama, estágio supremo de uma população que se assimilou.” (p.55)

A distância cultural

“Os problemas sociais que os imigrantes enfrentam surgem no fato de que os aspectos materiais da cultura tendem a modificar-se com mais rapidez que os seus traços não materiais.” (p.56)

O homem marginal

“Segundo Simmel, o estrangeiro instala-se na comunidade, mas fica à margem. Não apreendem seus mecanismos íntimos e permanece de certo modo exterior ao grupo social, o que lhe confere, involuntariamente, uma maior objetividade, “que não implica o distanciamento ou o desinteresse, mas resulta antes da combinação específica da proximidade e da distência, da atenção e da indiferença”(p.56)

“Os contatos entre as diferentes culturas produzem sempre uma desorganização das instituições sociais, sendo mais afetadas as da cultura “fraca”, ou seja, as do grupo minoritário. Deste grupo, alguns elementos “marginais” emergem caracterizados por sua vontade de abandonar o grupo de origem e de integrar-se ao grupo majoritário.”(p.57)

“Segundo Park, o homem marginal é tipicamente um imigrante de segunda geração, que sofre plenamente os efeitos da desorganização do grupo familiar, a delinquência juvenil, a criminalidade, o divórcio etc. O homem marginal, ao separar-se da sua cultura de origem, é sempre alguém que , aculturando-se, constrói para si mesmo uma nova identidade.” (p.58)

“O homem marginal, que elabora um nosso mundo com base em suas experiências culturais diversas, sente-se com frequência rejeitado, e com razão, pois está apenas parcialmente assimilado.
Consequentemente, segundo Stonequist, na maior parte do tempo ele desenvolve críticas duras acerca da cultura dominante que o rejeita apesar de seus esforços de integração, e denuncia sua hipocrisias e contradições.” (p.59)

A criminalidade

A escola de Chicago, além dos estudos voltados para questões das imigrações e relações étnicas, foi responsável por bons estudos a respeito da criminalidade analisada em Chicago.

Alguns autores desenvolveram teses explicando o motivo dessa criminalidade pautados no conceito, novamente, de desorganização social.

As gangues

Segundo Thrasher há em Chicago uma zona onde vivem os imigrantes europeus, e seria nessas zonas que surgiam as gangues estudadas por ele; as gangues estão localizadas e se constituem em um “cinturão de pobreza”, o que dessa forma lhe traz certas características; “A gangue é uma resposta à desorganização social: 'ela oferece um substituto à aquilo que a sociedade não consegue dar e protege de comportamentos desagradáveis e repressivos. Supre uma carência e oferece uma escapatória” (p.63)

A formação de uma gangue

É formada necessariamente a partir dos encontros de jovens que vivem sem ter o que fazer ao redor de seus domicílios; esses jovens ajudam-se mutuamente e é isso que cria a coesão no grupo; a característica fundamental da gangue é o fato do deslocamento frente a outros grupos de forma conflituosa. Esses grupos que se tornam gangues possuem um território próprio e os indivíduos a eles agrupados tem consciência de si enquanto grupo.

A constituição de um delinquente (componente de uma gangue) se dá pelos seguintes fatores:

“Uma vida familiar inadequada, a pobreza, um ambiente deteriorado, uma religião eficaz, uma educação falha e lazeres inexistentes formam, em seu conjunto, a matriz do desenvolvimento das gangues. ( COULON apud Thrasher, p.66)

Um dos fatores de criminalidade segundo Shaw e McKay; “A pobreza, uma grande mobilidade e uma alta heterogeneidade da população acarretam a ineficácia das estruturas comunitárias, o que leva a um enfraquecimento do controle social; isto, por sua vez, favoreceu o surgimento da criminalidade.(p.76)

Os métodos de pesquisa

Este capítulo pretende mostrar um outro lado da sociologia de Chicago no que tangencia os aspectos de pesquisa. Segundo COULON na Escola de Chicago se configurou a partir da década de 1930 uma sociologia quantitativa, de forma marginal no seu início mas com grande tendência a se expandir.

Os documentos pessoais
-as cartas;
-o histórico de vida

“Não se encontram muitas reflexões metodológicas sistemáticas e aprofundadas nas pesquisas da Escola de Chicago. Na verdade, os debates metodológicos e teóricos sobre a validade dos métodos qualitativos são muito recentes na história da sociologia americana. […] Talvez seja preciso ver na ausência de comentários dos sociólogos sobre seus métodos de investigação, o fato de que lhes parecia natural investigar desse modo no seio das comunidades que tomavam por objeto.” (p.114)

Conclusão: uma segunda escola de Chicago

“Como movimento intelectual e teórico, pode-se que uma primeira escola de Chicago se encerrou com a segunda guerra mundial, no momento em que a sociologia americana se tornou mais quantitativa e mais diversa no plano teórico. Em compensação, a sociologia quantitativa que a Escola de Chicago soube desenvolver teve influências consideráveis sobre a sociologia americana, e continua a ser reinvidicada por um grande número de sociólogos em todo o mundo.” (p.123)

“[...] a sociologia de Chicago foi prolongada, sobretudo por aquilo que se pode chamar de 'Segunda Escola de Chicago', caracterizada por trabalhos de orientação interacionista e por novas teorias do desvio.”(p.124)



Referência:

Coulon Alain. ‘ Escola de Chicago de Chicago.  Papirus Editora, São Paulo. Tradução: Tomás R. Bueno.

Tópicos em Filosofia da Mente


                                                                                                            Antonio Durval Campelo Barauna


         Os estados mentais apresentam ou possuem um conteúdo ou significado proposicional próprio. Os estados mentais traduzidos, por exemplo, em “acreditar” ou “desejar” algo, são tratados como “atitudes proposicionais” por expressarem atitude própria de um sujeito em relação a alguma coisa, objeto da atitude. Quem crê, crê em algo, quem deseja, deseja alguma coisa. O objeto do desejo ou da crença é o “alvo” da atitude proposicional. Não há falar-se em dualismo, interacionismo ou reducionismo. O fenômeno da crença ou do desejo, utilizados nos exemplos estão associados à linguagem. À linguagem psicológica.  
O mental trabalha com conteúdos psicológicos, não compreendendo, desta forma, uma linguagem que envolva propriedades materiais, o que significa que existem coisas às quais nos referimos utilizando um vocabulário que possua significado material (referencia a objetos físicos, por exemplo) e outras coisas às quais nos referimos, fazendo uso de vocabulário psicológico (ações, desejos e estados mentais em geral). 
Donald Davidson diz, sobre a relação entre o mental e o físico, cuja principal particularidade é afirmar a redução ontológica ao mesmo tempo em que abre mão da redução conceitual entre os dois domínios. Segundo o monismo anômalo, como tal teoria é chamada, o mental acontece no mundo, não sendo traduzido, entretanto, por leis físicas. O fenômeno mental não é explicado por leis físicas.
Aliás, no tocante à prova que se busca do mental, o que o distingue não é o fato de ser privado, subjetivo ou imaterial, mas que possua intencionalidade. As ações intencionais se incluem claramente no domínio do mental.
O monismo anômalo se assemelha ao materialismo ao afirmar que todos os sucessos são físicos, mas repele a tese, considerada essencial ao materialismo, de que todos os fenômenos mentais admitem explicações exclusivamente físicas. O monismo anômalo nega a existência de leis estritas conectando o mental e o físico. De um lado, ele se aproxima do materialismo quando afirma que todos os eventos são físicos; de outro, rejeita a tese, essencial para os materialistas, de que os fenômenos mentais podem receber explicações físicas. Contudo, embora impeça a existência de leis psicofísicas estritas e, por conseguinte, a redução psicofísica, o monismo anômalo postula que as características mentais são de algum modo dependentes de, ou melhor, supervenientes às características físicas. As entidades ou eventos mentais são físicos, mas as descrições ou tipos mentais não são redutíveis, a conceitos físicos. Há uma diferença essencial de categoria entre o mental e o físico o que impede que tipos mentais sejam tipos físicos, o que resulta na impossibilidade dos tipos mentais serem capturados pela “teia nomológica da teoria física”. Nenhum elemento puramente físico, independentemente da sua complexidade, possui a mesma extensão de um predicado mental. 
Contudo, de que forma a referida diferença pode ser compatibilizada com o papel causal de certos eventos mentais no mundo físico? Harmonizar a liberdade com o determinismo causal é um dos casos especiais – e, de resto, bastante antigos – deste problema, já que o determinismo causal requer justamente a captura por, ao tempo em que a liberdade aponta para a fuga de qualquer teia nomológica. Assim, ao defender tanto a dependência causal quanto o “anomalismo” dos eventos mentais, Davidson, em última análise, não pretende senão, explicar como a aparente contradição entre a liberdade e a necessidade natural no âmbito das ações humanas pode ser de maneira convincente, eliminada.
A partir de uma “perspectiva descritiva” o componente individual de um pensamento ou de qualquer outro evento mental intencional é uma descrição na qual o objeto referido é o objeto que está assentado unicamente na descrição, é o objeto do pensamento. Quando alguém pensa um objeto por descrição (“água”, por exemplo), o conteúdo do seu pensamento parece independente do objeto particular referido pela descrição. Ou seja, meu pensamento sobre “água” será sempre o mesmo da descrição, mesmo que seja diferente ao que se refere (eu posso estar diante de algo que não é água e, mesmo assim pensar que é água).
A interpretação da conduta verbal mostra os aspectos que sobressaem da explicação da conduta em geral: não ganhamos nada considerando as partes separadamente, pois somente o contexto do sistema – linguagem - pode especificar o seu papel. É importante lembrar ainda que, para quem interpreta o “sistema” linguagem, a suposição é de que a fala é uma fala verdadeira, considerando-se como verdade algo que está relacionado com a nossa capacidade de aprendê-la e realizá-la (aprender algo e realizar algo).
A mente é tudo aquilo que, na experiência humana, podemos afirmar que possui um conteúdo semântico, como os nossos pensamentos, intenções e crenças e que podem ser explicados evocando fenômenos ou processos que se passam no âmbito individual e isolado da mente. Chamamos de internalismo, individualismo ou subjetivismo  a crença segundo a qual os conteúdos do pensamento de um sujeito são inteiramente individuados pelos estados internos ou estados intrínsecos desse sujeito,  tomando-se tais estados num sentido amplo, o que pode incluir também estados cerebrais. Nesta tradição, “quais entre nós entenderia que nosso pensamento está em outro lugar que não dentro, ‘na mente’?”.
Do ponto de vista de uma “perspectiva não-descritiva”, um sujeito pensa num objeto não pela via da descrição, mas antes em virtude de estar em alguma relação real ou causal com o objeto. Nesta perspectiva, os pensamentos e outras atitudes proposicionais de um sujeito se conectam com seus objetos não pela descrição, mas mais diretamente em virtude da relação na qual o sujeito se encontra com aqueles objetos. O componente singular do pensamento não é equivalente a uma descrição que permanece constante em qualquer estado do mundo; antes, o conteúdo do componente singular do pensamento é individuado parcialmente pelos objetos de que trata. Imaginemos um sujeito que está diante da água e pensa ou crê que água, e que se encontra, noutro instante, numa situação contrafactual na qual está diante de algo parecido com a água, mas que não é água e ele pensa e crê que água: posto que o mundo objetivo é diferente, seus pensamentos têm, segundo uma “perspectiva não-descritiva”, conteúdos diferentes. Ou seja, uma perspectiva não-descritiva sobre o significado inspira uma concepção externalista do mental e do significado.  O externalismo não afirma que não temos estados subjetivos ou intrínsecos; afirma apenas que os pensamentos e outras atitudes proposicionais de um sujeito não podem ser individuados no seu conteúdo inteiramente por esses estados subjetivos e intrínsecos, mas sim que podem ser individuados parcialmente pelos objetos, eventos e acontecimentos do mundo exterior à mente subjetiva.
É o que devemos esperar do externalismo: considerar que a autoridade da primeira pessoa, a perspectiva da terceira pessoa e o caráter social da linguagem, no contexto intersubjetivo da interpretação e da conversa comum, devem se combinar e não se excluir.



Referências
DAVIDSON, Donald.  Ensayos sobre acciones y sucesos. Barcelona: Crítica, 1995.
SILVA FILHO, Waldomiro José. Mente, Mundo e Autoconhecimento. Trans/Form/Ação, (São Paulo), v.30(1), 2007, p.151-168.

     

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

TEORIA DAS ELITES – UMA SÍNTESE DA VISÃO DOS PRECURSORES

Antonio Durval Campelo Barauna


INTRODUÇÃO

No contexto político do inicio do século XX, ápice do questionamento da desigualdade, é que se erguem as vozes dos que asseguram ser ela “natural” e “eterna”, noção que talvez possa ser apresentada como a mais simples definição do elitismo. No sentido mais comum, o elitismo pode ser descrito como a ideia de que a igualdade social plena é impossível, e que sempre haverá um grupo mais apto a deter o poder, uma minoria que governará uma maioria.
A ideia não é nova. Platão, n’A República, concebe uma sociedade ideal a ser governada por especialistas, filósofos de rigorosa formação, conforme idealiza. Estes, tendo aprendido a verdade, seriam dali por diante guiados exclusivamente por ela, e a chegada à condição de “filósofo rei”, o governante escolhido, não deixa de ser uma forma de seleção de elites.
O elitismo encara, de modo geral, a desigualdade como fato natural.  Isto pode ser demonstrado pelo tratamento dispensado pelo pensamento elitista àqueles que compõem a elite dirigente.
Do século XIX aos dias de hoje, entretanto, a teoria das elites experimentou diversas mudanças, tendo sido alvo de sucessivas reinterpretações, e apropriada de maneiras distintas.
De um conjunto de teses antiigualitárias e antidemocráticas, ao menos aparentemente, quando observadas a partir dos padrões atuais, passou a ser tomada como uma análise realista do sistema democrático. Na formulação de seus autores e comentadores mais recentes, o que o elitismo visa a demonstrar é que, com efeito, qualquer sistema político, mesmo o democrático, é dirigido por minorias. A democracia, contudo, se distingue por ter no poder não uma elite fechada, cristalizada em um só grupo que se reproduz internamente, e sim aberta, renovada por meio de um processo de livre concorrência pelos votos do eleitorado, como deixa claro Schumpeter, por exemplo, que na década de quarenta do século vinte, ao buscar definir democracia, assegura que esta constitui apenas um método para se chegar a decisões políticas através da escolha da elite governante.
Portanto, em qualquer sistema, mesmo os mais igualitários, em qualquer forma de governo, mesmo as ditas democráticas, poderia ser constituída uma classe espoliadora, pouco interferindo o modo como fosse escolhida ou alcançasse a dominância. Assim, muito mais importante do que impor essa ou aquela forma de eleição, muito mais importante do que poder escolher em nome de quem se faria a espoliação, era evitar a própria espoliação. É certo, porém, ressalvava Pareto, que “quando a classe dominante é recrutada por hereditariedade ou por cooptação, o seu jugo é mais odioso do que quando ela é recrutada por eleição; daí não se segue, contudo, que ele seja também mais pesado. Ainda não foi devidamente demonstrado que um governo oligárquico tenha sido mais desonesto do que o da municipalidade de Nova York, eleito pelo sufrágio universal. O povo da Toscana era mais feliz e menos espoliado sob o governo absoluto de Leopoldo do que no governo constitucional atual.”
 A Teoria das Elites, embora concebida entre o final do século XIX e início do século XX, a partir do pensamento de Gaetano Mosca com sua doutrina da classe política, Vilfredo Pareto com a teoria da “circulação das elites” e Robert Michels com a ideia da “lei de bronze das oligarquias” mostra-se, desta forma, bastante atual. E é a partir dessas visões que será aqui tratada.

VILFREDO PARETO

Embora seja Gaetano Mosca (1858-1941), tido como o fundador da teoria das elites no final do século XIX, inicio pela abordagem das ideias de Vilfredo Pareto (1848-1923), que trata o conceito de elite de forma mais geral, facilitando a sua exposição inicial e tornando-o mais compreensível.
De acordo com Pareto, existem em todas as áreas de atuação humana, indivíduos que se destacam dos demais por seus dons, por possuírem qualidades superiores, que compõem uma minoria distinta do restante da população, que constituiria uma elite.  A existência das elites revelaria a desigualdade – natural – entre os homens, da qual a desigualdade social seria um simples efeito.
Desta forma, na concepção de Pareto, elite pode ser reconhecida ou definida pelas habilidades próprias de seus integrantes – ao contrário do senso comum, que incorpora ao termo a capacidade de influência. Assim, não se atribuirá o termo elite apenas a uma aristocracia, mas a qualquer grupo que se destaque (o mais habilidoso, por exemplo) em sua atividade especifica.
Pareto busca reduzir diferenças básicas que se observam na sociedade, ao tratar as muitas elites como se fossem idênticas. Para ele, o mais bem sucedido dos mendigos, é tão “de elite” quanto o mais bem sucedido dos milionários, sendo, desta forma, possível falar numa elite religiosa, numa elite de guerreiros, numa elite econômica e até mesmo em uma elite de ladrões.
Reduz diferenças, mas não elimina a ideia de que as desigualdades entre os indivíduos é que alimentam diretamente o surgimento das elites. Ele, entretanto introduz uma distinção essencial para o conceito de elite, instituindo a existência de uma elite governante, que exerce o poder político, diferenciando-a de quem não se encontra nessa condição, que chama de elite não governante. A existência de um grupo minoritário que monopoliza o governo é, para ele, uma constante universal das sociedades humanas.
Segundo Pareto, as ações humanas podem ser lógicas, que são, pelo menos na parte principal, o efeito de um raciocínio, e não lógicas, que têm origem, sobretudo, em um determinado estado psíquico – sentimentos, subconsciente, etc. – que constituirão a base do que ele chama de “resíduos”. Para o autor somente a psicologia pode dar conta desse estado psíquico. A sociologia, por sua vez, só pode analisar as suas manifestações por meio de fenômenos exteriores, por isso observáveis, que expressam esses sentimentos na forma de justificativas, teorias, discursos, enfim construções simbólicas que Pareto chama de derivações.
Pareto sustenta que a mais importante derivação do mundo contemporâneo é a doutrina democrática, um discurso teórico que descreve a participação de todos no poder político, quando o que ocorre de fato, mesmo naqueles governos ditos democráticos, é a submissão política da imensa maioria das pessoas a uma minoria governante.
A concepção, anteriormente referida, de elite governante e elite não governante, é fundamental para que ocorra aquilo que Pareto denomina de “circulação das elites”, entendida como os modos pelos quais se dá a passagem de um a outro grupo, e a intensidade do movimento, isto é, a velocidade da circulação.
O autor elabora a teoria do equilíbrio social, que estuda a interação das diversas classes de elite, cujas principais são as elites políticas que têm dois pólos: os políticos que usam a força (os leões) e os que usam a astúcia (as raposas).
A dinâmica da teoria da “circulação das elites” e sua importância para o equilíbrio social leva Pareto a afirmar que assim como nas demais atividades humanas, também no âmbito da política os resíduos são desigualmente distribuídos nas classes superiores e inferiores, constituindo essa distribuição, a base da desigualdade política. Pode se perceber desta forma que, para Pareto, a desigualdade é fruto não de determinantes sociais, políticos ou econômicos, mas de uma distribuição desigual dos resíduos necessários para o exercício do comando.
 Temos aí uma estranha teoria sociológica que busca explicar as desigualdades sociais a partir de fatores essencialmente psicológicos. Pareto confere especial importância aos resíduos da classe I (instinto das combinações), e da classe II (persistência dos agregados). Esses dois resíduos determinam, na esfera política, uma forte propensão para, no ato de governar, usar a persuasão – efeitos dos resíduos da classe I a que chama de “raposas” – ou a força – efeitos dos resíduos da classe II – a que chama de “leões”.  
Para permanecer no poder, a elite governante busca cooptar na sociedade indivíduos talentosos. Os leões, justamente por serem leões, não são dados a compromissos, e tendem a não aceitar a cooptação, que ocorre em geral para postos (a princípio) subalternos. Só as raposas ascenderão ao poder, causando um desequilíbrio. Assim, poderá existir um governo formado total ou majoritariamente por indivíduos da classe I, que preferem usar apenas a astúcia e vacilam em empregar a força. A segunda consequência seria um acúmulo de leões privados de poder, mas desejosos de alcançá-lo, formando uma “contra-elite”. Em um dado momento a pressão se torna grande demais, os indivíduos da classe II promovem uma revolução e instauram um governo leonino. E o processo se reinicia.
Pareto exemplifica com a Revolução Francesa, defendendo a ideia de que todas as mudanças políticas são, por trás das aparências, repetições de processo semelhante, qual seja a luta dos leões contra as raposas. Desta forma, discutir as transformações nas estruturas sociais, a economia ou a ideologia é inútil. Ele parte do pressuposto que a massa é incapaz de intervir no processo histórico. Se parece que o faz, é porque está sendo manobrada por outro grupo mais habilidoso, e tal conquista é atribuída à elite que emergiu dessa massa, situação que enquadra o movimento à sua teoria de circulação das elites.
Outro ponto a ser tratado na dinâmica de “circulação das elites” é a ideia presença da palavra força no que se aplica aos indivíduos da classe II – os leões. Uma vez que de acordo com Pareto, nenhum governo resiste sem sua quota de leões, o uso da força deve ser aceito como inevitável na sociedade, fato concepção útil para legitimar a repressão.
Pode-se perceber que todo o esforço intelectual de Pareto está voltado à demonstração de que qualquer ordenamento democrático é ilusório. Ele tinha convicção na superioridade das elites econômicas e políticas porque acreditava que as desigualdades sociais faziam parte da “ordem natural” das coisas. Devido à sua intransigente defesa da dominação das elites, e também por ser um crítico contumaz de qualquer forma de regime socialista, Pareto é apontado como o ideólogo precursor do fascismo embora nunca tivesse aderido formalmente ao regime fascista italiano.

GAETANO MOSCA

Para melhor entendimento das formulações de Gaetano Mosca (1858-1941), faz-se interessante observar alguns paralelos entre suas ideias e as de Pareto. Mosca estabeleceu os pressupostos do elitismo, entendeu que um dos aspectos mais claros de todos os organismos políticos, era o de que havia duas classes de pessoas, uma mais e a outra menos numerosa, sendo a primeira dirigida e a segunda dirigente. O que distinguia a minoria da maioria, conferindo-lhe o poder de dirigir, era, inicialmente, a organização. Para ele, o domínio da minoria sobre a maioria seria uma constante universal.
A chave, para entender esse fenômeno, é que a minoria é organizada, enquanto a maioria, justamente por ser numerosa, está fadada à desorganização. Para que se organize, precisará constituir uma minoria dirigente dentro de si. Desta forma, a minoria será, para Mosca, mais poderosa que a maioria. Ou seja, o membro da maioria que se insurgir estará sempre isolado contra a classe dirigente, que age em bloco.
Ao contrário de Pareto então, Mosca não se preocupa em determinar quais são os mais habilidosos ou qualificados. Ele abandona as explicações psicológicas, vinculando o domínio da minoria a uma questão organizativa. O passo seguinte, em sua teoria, é a discussão da legitimação: a minoria se faz passar, diante da maioria, como dotada de certa qualidade superior. Assim, o exercício do poder é justificado em nome de princípios morais universais. Tais princípios mudam historicamente, de acordo com a transformação material na sociedade. Era a valentia, nas sociedades inseguras do passado, quando o gozo da vida e dos bens dependia de força militar própria e os guerreiros governavam. Em seguida, com o aumento da produtividade da terra e a redução da insegurança, a base do poder passa a ser a propriedade rural, e assim por diante. Trata-se de uma perspectiva materialista, que, em vez da luta entre leões e raposas, apresenta o conflito contínuo entre antigas fontes de poder, que querem se manter, e novas fontes de poder, que desejam emergir.
Apontou a hereditariedade como um dos elementos destinados ao acesso à classe dirigente. Essa idéia levou-o a sustentar que a classe dirigente não poderia se manter no poder somente na base da força. Ela deveria pautar-se em algum outro princípio, quer fosse ele religioso legal ou moral. Aproximando-se das formulações de Pareto, Mosca sustenta que na sociedade existem indivíduos mais bens dotados que outros, e que tais indivíduos, em função dos seus atributos, estariam destinados a dirigir a maioria.
Desta forma, segundo assegura, em todas as sociedades, começando pelas medianamente desenvolvidas, até as mais cultas e fortes, existem duas classes de pessoas, a dos governantes e a dos governados. Esse é o ponto de partida para a Teoria das Elites, a constatação de uma lei histórica e inevitável que divide os homens nessas duas “categorias”. Os governantes foram chamados por Mosca de classe política ou classe dirigente e os governados constituiriam as massas.
O domínio da classe política sobre o resto da sociedade não é entendido por Mosca como sendo, exclusivamente, o resultado de uma relação de força entre dominantes e dominados. Segundo afirma, a classe dominante justifica o seu poder, buscando dar-lhe uma base moral e legal, apresentando-o como conseqüência necessária de crenças reconhecidas e aceitas na sociedade comandada por essa classe. Dessa forma, Mosca introduz um dos temas clássicos da ciência e da sociologia política, o da legitimidade de uma forma de dominação.
Mosca deu ênfase a uma interpretação não ideológica da teoria das elites, distinguindo duas formas diferentes de formação das classes políticas segundo a qual o poder se transmite por herança, de onde provêm os regimes aristocráticos, ou buscando constantemente realimentar-se das classes inferiores, de onde nascem os regimes democráticos.
Seguindo os contornos da formulação de Pareto, a teoria de Mosca também investe contra as “ilusões” do movimento operário, que propunha reunir a maioria da população e levá-la ao poder. Impossível, segundo ele, já que a maioria nunca governa, no máximo pode entronizar outra minoria. Daí, portanto poder-se concluir tratar-se de uma teoria conservadora, pragmática, segundo a qual não adianta tentar mudar o mundo, já que, em sua essência, ele permanecerá sempre o mesmo.

ROBERT MICHELS

Robert Michels (1876-1936) observa a relação entre a organização e grupo de poder, de forma diferente da proposta por Mosca. Para ele a organização enseja a formação de um grupo oligárquico, funcionando esta como sinônimo de oligarquia.
O clássico trabalho de Michels, Sociologia dos partidos políticos, escrito em 1911, baseia-se em um duplo eixo interpretativo. Primeiro, no que podemos chamar de sociologia das organizações, o autor procura reter os determinantes organizacionais que leva à divisão entre uma minoria de governantes, que ele chama de oligarquia e não de elite, e uma maioria de governados.
O outro eixo interpretativo da sociologia de Michels é aquele da psicologia das multidões, comum aos outros teóricos da elite e que para ele serve para explicar a necessidade que as massas têm de se submeterem aos chefes. Combinando essas duas variáveis, Michels identifica as razões pelas quais, no interior das organizações, mesmo daquelas que se dizem democráticas, ocorre a formação de minorias – as oligarquias – que acabam por dominar as maiorias.
O núcleo de sua tese é que qualquer tipo de organização caminha para a burocratização. Neste ponto ele fica com Mosca: a massa, o grande número, é incapaz de se organizar. Quando resolve fazê-lo, deve fatalmente constituir um pequeno comitê para dirigi-la. Isto é a burocratização: não há mais um movimento espontâneo de massa, e sim algo com uma hierarquia, com regras, com disciplina.
Enquanto Pareto e Mosca não se detinham em casos concretos – teorizavam e depois pinçavam na história os exemplos que julgavam adequados – Michels adotou percurso inverso. Com base em evidências empíricas buscou demonstrar que mesmo dentro das organizações partidárias que funcionam num sistema político democrático, há fortes tendências à elitização, ou seja, concentração de poder num grupo restrito de pessoas. Michels chamou essa tendência à elitização de “lei de bronze das oligarquias”.
A burocratização assume uma característica especial, que é a oligarquização. Para que a organização aja com eficiência, é necessária a criação de um quadro de funcionários que se dediquem em tempo integral a ela. Ora, essa nova posição funcional gera novos interesses, ligados a ela e diferentes daqueles que a base da organização possui. O operário que se torna um quadro profissional do partido não é mais um operário, é um burocrata ou um líder político. Para os militantes da base, a organização é um meio para alcançar um determinado fim. Para o funcionário, a organização torna-se um fim em si mesma, já que seu ganha-pão está no partido.
Segundo Michels, isto levaria inevitavelmente ao abandono dos ideais revolucionários. Primeiro, porque os líderes já teriam alcançado uma posição privilegiada na sociedade.  Depois porque uma tentativa revolucionária poderia por em risco a própria existência do partido e consequentemente o “ganha-pão” dos funcionários. O poder, diz Michels, é sempre conservador. Toda organização gera uma minoria dirigente, com interesses divergentes dos de sua base. Embora os caminhos traçados sejam diferentes, a conclusão é a mesma de Mosca: só a minoria pode governar. Tal construção constitui a chamada “lei de bronze das oligarquias”.
Michels tocou em um ponto fundamental para a prática da democracia, que é a relação entre representantes e representados. Sua teoria é útil para que se proceda à analise  do desgaste atual dos partidos políticos, que pode ser creditado à situação por ele descrita e explicado pela teoria formulada pelo autor.
Assim que as direções dos partidos revolucionários, olhando pela sua preservação, tratam de garantir a sua aceitação na vida política, afastando-se das vias perseguidas pela lei. Olham pelo crescimento do aparelho partidário, reforçam o controle interno, e a vida da organização torna-se um fim em si mesmo. Michels sublinha o fato de a organização se auto-proteger quando enfrenta um desafio, mas deixa pairar a idéia de que o movimento normal das organizações, na oposição ou no poder, é transformar seus objetivos de classe, abandonando-os em função de articulações mais vastas e úteis para a própria organização.
A demonstração empírica da tendência para a oligarquia constitui uma necessidade histórica, uma das leis de ferro da história, às quais não puderam escapar as sociedades modernas mais democráticas e, dentro destas sociedades, os partidos mais desenvolvidos, situação que a longo prazo poderá promover a unificação dos pontos de vista e a perda de relevância da diferença de opiniões.
Robert Michels não anula a luta política nas democracias: mostra apenas que as bandeiras são fictícias – uma escolha entre símbolos propagandeados como opostos – tendendo as oligarquias partidárias a comungar em princípios doutrinais cada vez mais alargados em função da conquista de camadas cada vez maiores da massa.
Portanto, a maior contribuição da teoria das elites formulada por Michels se refere ao fato, inusitado e paradoxal, de que a elitização ocorre até mesmo no interior das organizações comprometidas com os princípios de igualdade e democracia, ou seja, os partidos políticos de massa, sindicatos, corporações e grandes organizações sociais.
Para Michels, as massas não se interessam pelos aspectos técnicos das discussões políticas. Preferem as atitudes espetaculares ou os discursos bombásticos e possuem uma forte propensão a se deixarem conduzir por indivíduos carismáticos e a se tornarem gratas a eles. Nessas condições, torna-se difícil a realização do ideal radical de uma democracia, marcada pela participação direta de todos, o que não quer dizer que Michels aposte na inevitabilidade do despotismo. Para ele a democracia é possível, desde que pensada não como um governo direto das massas, mas como um sistema que impeça as oligarquias de exercerem o controle absoluto.

CONCLUSÃO

O desafio das teorias de Mosca, Pareto e principalmente Michels é que elas são bem fundadas e ainda assim tendemos a não aceitá-las, seja por algum idealismo remanescente, ou talvez por algum tipo de sentimento “ético”, pois elas, como já aqui afirmado, apresentam um conjunto de teses aparentemente antiigualitárias e antidemocráticas.  
Entretanto, é no trabalho desses teóricos, que se encontra uma abordagem que explica porque a dominação de uma classe sobre outra, de uma minoria sobre uma maioria, é inevitável nas sociedades humanas.
O conceito de “circulação de elites”, da margem a ideia de que as massas poderiam não ser capazes de se governar, mas teriam condições de escolher qual minoria iria governá-los.
Essencialmente a teoria das minorias governantes, ou elitista, evolui gradativamente para uma concepção desigual de sociedade, condizente com uma visão cíclica da história e com uma atitude pessimista e uma incredulidade quase total em relação aos benefícios da democracia, com uma crítica radical do socialismo.
Partindo de uma perspectiva puramente política, que é absurdamente amoral por definição, é claro que não há muito que refutar – e de fato, a realidade brasileira atual parece profeticamente imitar a teoria de Michels: basta ver os partidos que vimos nascer, crescer e morrer completamente determinados pela lei de bronze. E a mudança social efetiva? Parece realmente não ter havido.
A teoria das elites, na visão desses autores, versou sobre o entendimento acerca da existência de uma “nata” de pessoas dirigentes, representativas de uma minoria, que estavam, irremediavelmente, destinadas à liderança, em consequência de suas aptidões naturais e superiores e, ainda, em decorrência da incompetência e da apatia das massas.
De acordo com Mosca, Pareto e Michels, as democracias modernas devem ser consideradas oligarquias eleitas. Nesses sistemas, as diferenças efetivas entre os rivais políticos viáveis são relativamente pequenas e limites estritos são impostos (pela elite oligárquica) sobre o que constitui posições políticas “aceitáveis” ou “respeitáveis”. Além disso, a carreira dos políticos depende fortemente das elites econômicas e intelectuais que não foram eleitas.


Referências bibliográficas

GRYNSZPAN, Mario. Ciência, política e trajetórias sociais: uma sociologia histórica da teoria das elites. Rio de Janeiro: FGV, 1999. 255 p.
MICHELS, Robert. Sociologia dos Partidos Políticos. Tradução de Arthur Chaudon. Brasília, UnB, 1982.
MIGUEL, Luis Felipe. A democracia domesticada: bases antidemocráticas do pensamento democrático contemporâneo in http://dx.doi.org/10.1590/S0011-52582002000300006 
MOSCA, Gaetano. La clase política. México: Fondo de Cultura Económica, 1992.
PARETO, Vilfredo. Coleção Grandes Cientistas Sociais, (org.) J. A. Rodrigues. São Paulo: Ática, 1984.
PERISSINOTTO, Renato. As elites políticas: questões de teoria e método. Curitiba: IBPEX, 2009.